sábado, 7 de fevereiro de 2009

PDT almoça frango e batatinha com Brizola

Esta crônica foi publicada após a morte do político Leonel Brizola e reproduzida em alguns sites como o "La Insignia".

PDT almoça frango e batatinha com Brizola
Paulo Cezar Guimarães

"Isso que está aí tem
olho de jacaré e boca de jacaré.
Como não vai ser um jacaré?".


UMA FIGURAÇA! Se é que se pode rotular uma autoridade com esse adjetivo sem parecer desrespeitoso.

Fui repórter de O Globo responsável pela cobertura do Palácio Guanabara durante o primeiro governo Brizola e me diverti muito. Me aborreci também. Mas me diverti mais.

Logo nos primeiros dias de governo, Brizola decidiu adotar uma forma de trabalho que seria uma rotina no seu dia-a-dia: fazer reuniões fora do Palácio, de preferência em churrascarias, em especial numa de Ipanema. Levava todo mundo para lá e fazia questão que experimentassem a maminha de alcatra, uma das especialidades da casa.

Certa vez, não sossegou até convencer um chefe de estado, vegetariano, de um país da África a provar uma fatia da suculenta e sangrenta carne. Tudo isso utilizando-se apenas de gestos.

Brizola era um notório monoglota, apesar de ter vivido muitos anos fora do Brasil. Era centralizador sim. Não dava muita bola para a maioria dos seus secretários e, principalmente, para a sua curiosa bancada na Assembléia Legislativa.

Pressionado por alguns parlamentares, decidiu receber os políticos em um almoço no Palácio Guanabara. A pauta de conversas era grande: um melhor entrosamento e maior entendimento entre o Legislativo e o Executivo, a coligação entre o PDT e o PMDB com vistas à eleição de 1986 e a interiorização do acordo. Os deputados, que antes do encontro disseram aos repórteres que "iriam fazer e acontecer", ao final, ficaram "pianinhos", como se dizia antigamente. Nada foi veiculado sobre a reunião. Um deles chegou a dizer: "Não houve novidades. Nós comemos um franguinho, um arroz à grega e uma batatinha bem coradinha". No dia seguinte, O Globo divulgou os diálogos inusitados entre os parlamentares com o título: "PDT almoça frango e batatinha com Brizola".

Viajava para o exterior sem informar aos seus assessores diretos. Muitas vezes tomavam conhecimento através de bilhetes ou por meio do Diário Oficial em razão do pedido obrigatório de licença que tinha que ser encaminhado à Assembléia Legislativa. Freqüentemente utilizava o Palácio Laranjeiras para "evitar o contato com manifestantes e bajuladores" que o assediavam diariamente no Palácio Guanabara.

Uma vez foi surpreendido por um grupo de estudantes e funcionários da Proderj que saíram do Guanabara e foram para o Laranjeiras fazer reivindicações. Aliás, ao contrário de outros governantes que o antecederam ou o sucederam, não morava no Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador do Estado. Preferia ficar em seu apartamento da Avenida Atlântica, em Copacabana, onde realizava muitos de seus despachos com seus auxiliares de confiança.

Desde o slogan lembrado até hoje (principalmente por dona Maria Tereza Goulart) "cunhado não é parente, Brizola pra Presidente", no início dos anos 60, era lançador de frases pitorescas, geralmente com o recurso de comparações imaginosas e muitas vezes procurando atingir alguém com uma estocada irônica.

Como da vez em que lançou suspeita sobre alguns setores da oposição de estarem tentando desestabilizar o seu governo: "Isso que está aí tem olho de jacaré e boca de jacaré. Como não vai ser um jacaré?". Famoso por pontuar suas frases com "não é verdade" e "rigorosamente" criou a expressão "socialismo moreno" e foi eleito com o slogan "Brizola na cabeça".

Antes de tomar posse, anunciou: "Não estranhem, não vou ser a Rainha da Inglaterra". Lula, a quem chamou um dia de "sapo barbudo", e o PT também foram vítimas de suas estocadas durante uma greve: "Isso é coisa desses barbudinhos de óculos redondos que têm a geladeira cheia na casa da mamãe, do papai ou da titia".

Tinha uma relação de mais tapas do que de beijos com a Imprensa. Não gostava muito de dar entrevistas para a televisão, usava pouco o rádio nas conversas com os repórteres. Preferia ficar longas e intermináveis horas com o pessoal dos jornais.

Queixava-se muito da cobertura jornalística do seu governo e de algumas perguntas que considerava comprometedoras. Uma vez reagiu a um questionamento de um repórter: "A sua pergunta até parece um destaque do editorial de ontem do seu jornal". E acrescentou: "Viu como há falha mental aí? Tu não andou distribuindo prospectos convidando para passeatas?".

Saí de O Globo para trabalhar em uma empresa multinacional e dar aulas de jornalismo numa faculdade. Deixei de ter contato com ele.

Uma vez, fiz um pequeno teste com alunos de uma de minhas turmas com a seguinte pergunta: "O que vocês acham da cobertura que a Imprensa faz do governo Brizola?". A maioria considerava a cobertura "tendenciosa".

Comentei com um amigo jornalista e não sei como a informação chegou a ele, através de seu assessor de muitos anos, o saudoso Carlos Contursi. Brizola me chamou em sua casa para ler os textos dos alunos. Interrompeu uma reunião com seu secretariado e ficou mais de uma hora envolvido com folhas e folhas de papel almaço escritas com os "garranchos" dos estudantes. Chegou a me pedir para divulgar os textos em um de seus famosos "tijolaços", publicados freqüentemente nos jornais. Não concordei. Ele voltou atrás.

"Tens razão. Mas posso ler todos?". Leu todos os 50 e poucos textos manuscritos por alunos. Muitos criticavam asperamente o seu governo, alguns com fortes críticas pessoais. Eu ficava constrangido; ele ria.

Nunca mais vi Leonel Brizola de perto.

7 comentários:

Felipe Maynard disse...

Enquanto era vivo e candidato a qualquer coisa, votava nele.

pc guimarães disse...

Gente boa. Convivi muito com ele quando eu era repórter de O Globo.

Fernando Lôpo disse...

Mesmo com todos esses problemas, Brizola não fugia. Ia para entrevistas mesmo sabendo que alguns entrevistadores transbordavam e estavam ávidos para massacrá-los. O Roda Viva, da TV Cultura, era isso. Mas ele conseguia irritar ainda mais os entrevistadores, pois falava o que queria e sobre oq ue queria, ignorando os que de forma até brusca tentavam interrompê-lo.

Outros políticos escolhem os entrevistadores ou se recusam a participar, as chamadas entrevistas vôlei, onde só levantam para o entrevistado cortar.

Brizola faz falta, pois tinha opinião firme sobre tudo e não furtava a defendê-las, mesmo sabendo que poderiam lhe causar impopularidade ou mesmo serem distorcidas e usadas contra ele (o maior exemplo é a questão da segurança).

E uma diferença. Certo ou errado, Brizola é dos poucos (como Lacerda) que uma vez no poder FEZ. Buscou sempre REALIZAR alguma coisa. Certo ou errado? A população que avalie. mas tentava implantar suas ideias e não se omitia. Tivessem dado sequencia aos CIEPs e hoje a criminalidade seria bem menor.

Legal lembrá-lo.

Roberta disse...

PC, tenta manter seu blog mais atualizado.. assim consigo por sempre no clippng da Facha algumas crônicas suas.. abraço. Roberta

Colin Foster disse...

PC, não sei se lembra de mim, mas te mandei um e-mail uma vez depois de ler uma crônica sua. Coloquei 3 matérias do 5º período na minha grade da noite esse semestre e, por acaso, as 3 eram com vc, mas quando imprimi a grade definitiva, mudaram todos os professores, e acabou que não farei mais nenhuma contigo. O que houve?
Em tempo, aí está meu blog: http://oalto-falante.blogspot.com/

Grande abraço

pc guimarães disse...

Amigos (em especial Felipe, Fernando, Roberta e Colin): desculpe pelo sumiço. Violtei. E pretendo estar sempre atualizando este blog. Obrigado pela presença e comentários. Grande Colin: vamos falar em sala de aula sobre o que aconteceu.

santos disse...

Eu fui Brizolista quando era mais novo. Portanto, sou um tanto quanto suspeito para falar dele. Mas há algo que se pode falar, que é inegável. Ele representou uma mudança no olhar do poder público no Rio de Janeiro. Até então, só havia olhos para a classe média e para a elite; só se cuidava da zona sul do Rio. Com a chegada ao poder do Brizola, o foco passa a ser a população carente, o povo das hoje "comunidades". A crítica que se faz é que isso seria em função do populismo, de uma vontade quase insuperável de chegar à Presidência da República. A elite carioca nunca o perdoou por isso. Eu não sei, o fato é que as "comunidades" passaram a ser assunto nas reuniões governamentais.