domingo, 14 de dezembro de 2008

Ao Mestre com carinho

Ao Mestre com carinho
Paulo Cezar Guimarães

E grite, como fez Darcy Ribeiro
ao ver a Passarela do Samba ser inaugurada:
"É o orgasmo, e fui eu que criei..."


ENTRO NA LIVRARIA da Travessa, no centro do Rio, e encontro meu amigo e ex-aluno Murilo Fiúza, então repórter da Sucursal Rio de O Estado de S. Paulo.

- Mestre!

E vocês não imaginam o quanto é gostoso ser chamado de Mestre. Ainda mais na frente dos outros. Conversa vai, conversa vem, ele me mostra, orgulhoso, a primeira página do Estadão daquele dia. Está lá, com selo de exclusivo e tudo, uma reportagem sobre a participação de brasileiros no tráfico de cocaína na Colômbia. Dentro, três páginas de matéria - assinada. Demonstro interesse em dar uma lida.

- Leia na Internet, professor.

Faço cara de quem não vai procurar na Internet, ele percebe e promete:

- Melhor, vou separar um exemplar pra você.

Argumento que esse negócio de deixar para depois é coisa de carioca. - Não estou mais em idade de cair nessa.

Peço, então, o exemplar dele.

- Toma. É seu. Estava guardando para mostrar a minha mulher, mas consigo outro amanhã na Redação.

- Aceito, mas quero uma dedicatória.

- Tá louco, professor?!

- E qual é o problema?

A contragosto, meio envergonhado, ele faz a dedicatória.

- Vou mostrar aos meus alunos. É um bom tema para iniciar uma aula.

Saio da livraria, feliz com o entusiasmo do Murilo, e relembro da minha satisfação ao ver minhas matérias publicadas. Desde as primeiras, assinadas ou não, até aquelas que hoje publico em jornais de empresas ou os artigos que escrevo atualmente na Internet.

Lembro-me de que, certa vez, entrei no ônibus e reparei que o passageiro ao meu lado lia minha reportagem publicada no Globo. Não costumo abordar as pessoas, mas meu orgulho falou – ou pensou? – mais alto.

- Meu amigo, desculpe incomodá-lo, mas não resisto. Sabe essa reportagem que o senhor está lendo? Fui eu que escrevi....

- Ah é, é? E eu que fiz essa manchete da capa. Aliás, tenho três prêmios Esso de Reportagem e fui correspondente de guerra junto com o Rubem Braga e o...

Ainda tentei argumentar, mostrando minha carteira de identidade, mas o cara levantou-se irritado, me empurrando com o joelho. Desceu do ônibus, olhou para o motorista e resmungou:

- A gente vê cada uma!

Quando eu sabia que, no dia seguinte, iria ser publicada uma matéria assinada minha, quase não dormia. Mesmo quando a via ser diagramada ou quando conferia as provas na Redação. De manhã, cedinho, fazia quase que um plantão na banca de jornal, diante do meu prédio, no Grajaú. Chegava antes do jornaleiro. E olha que eu detesto acordar cedo. O vigia do prédio estranhou na primeira vez que isso aconteceu, quando me viu descer de pijama às 4 da matina:

- Está acontecendo alguma coisa seu Paulinho? (seu Paulinho também é dose, né?)

De outra vez, cruzei com o padeiro na escada. Estranhei, pois ele estava sem a cesta de pães; e pensei, maldoso:

- Será que esse cara estava no apartamento de alguma vizinha? Padeiro, mordomo e dentista são sempre suspeitos.

Mas a minha glória mesmo foi uma vez, na fila do guichê do Globo, para receber meu contra-cheque. Fui surpreendido pela atendente que deu uma gargalhada ao me ouvir dizer meu nome.

- Você é que é o Paulo Cezar Guimarães?

Cheguei a olhar debaixo da sola do meu sapato para ver se tinha pisado em alguma coisa, e juro que até olhei para o reflexo do vidro para saber se minha cara estava suja de carbono (acho que estou ficando velho, pois sou do tempo do carbono na Redação).

- Li a sua matéria...

E ainda gritou para uma colega:

- Fulana, olha aqui o cara que eu falei. Aquele. Daquela matéria sobre ...

No dia anterior, um domingo, tinha sido publicada uma curiosa e engraçada reportagem minha sobre “Os Chatos” (chato de comportamento, não aquele bichinho que dá lá no... no...).

E tem mais: arquivava tudo; desde as pequenas notinhas até as matérias de página inteira.

Portanto, meu caro Murilo, curta, mas curta mesmo. Se bobear, e a coragem não faltar, prenda numa cartolina e passeie com a sua matéria pendurada no pescoço pela Avenida Rio Branco.

E grite, como fez Darcy Ribeiro ao ver a Passarela do Samba ser inaugurada:

"É o orgasmo, e fui eu que criei..."

6 comentários:

Ana Helena disse...

PC, adorei ler sua crônica hoje... É leve e descontraída, como você, e me fez um bem danado! Mesmo daqui a alguns anos, já formada, e mesmo que se passe muito tempo depois disso, não quero nunca perder esse entusiasmo de acordar antes do jornaleiro pra dar plantão em frente à banca. Meu porteiro que já vá se acostumando com a idéia...
Beijos.

pc guimarães disse...

Obrigado pelo comentário, Ana. Tá tudo bem? Tenho corrido muito. Bom Natal procê.

Ana Helena disse...

Tá tudo certinho, sim, PC! :) Bom Natal procê também e um ano novo maravilhoso!

Fe Nagaoka disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fe Nagaoka disse...

PC, adorei esse blog. Parabéns. A sensação que eu tenho, enquanto leio suas crônicas, é de que eu ainda estou naquela sala de aula ouvindo suas histórias durante aulas. Conta mais. Escreva mais. Adoro. Bjos
Saudades

pc guimarães disse...

Obrigado, Japonesinha!