quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O Vale Coelho

Vale Coelho
Paulo Cezar Guimarães

Conversa vai, conversa vem,
acabei convencendo o maitre
a me ofertar o prato souvenir,
mesmo eu pedindo um espaguete ao sugo.



OUTRO DIA, para incrementar a minha coleção de pratos da Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança (para quem não conhece, é só acessar www.boalembranca.com.br), fui ao restaurante Navegador, no Clube Naval, centro do Rio. O prato da Boa Lembrança do Navegador em 2000 é “coelho ao molho de chocolate”. E eu lá sou homem de comer coelho? ’Inda mais com molho de chocolate!

Perguntei ao maitre se eu podia fazer uma outra escolha. Pelo mesmo preço ou até mais caro. Ele disse que não podia, pois os pratos são contados. Tantos coelhos ao molho de chocolate, tantos pratos da Boa Lembrança.

“Mas tem que ter um jeitinho”, implorei.

Pensei até em pedir que colocassem o coelho numa quentinha, mas achei que seria deselegante. Poderia também ter problemas com o Ibama. Combinei com o maitre deixar a conta paga e passar no dia seguinte com um amigo que comesse coelho. A princípio, ele ficou sem entender, coçou a cabeça, mas concordou.

Liguei pro Wilson Baroncelli, que come de tudo e, morrendo de rir, ao telefone, concordou em comer o pobre do bichinho.

“É o Vale Coelho, PC. Você acaba de criar o Vale Coelho”, disse.

E ainda acrescentou:

“Você está num clube de militares. Os caras levam as coisas ao pé da letra. Como você ia querer subverter a ordem?”.

Para não passar por chato, acabei pedindo um steak ao Poivre, o que acabou me deixando com sede e a boca ardendo o resto do dia. Mas saí de lá feliz da vida, com o prato da Boa Lembrança. Não sem antes ouvir um apelo do maitre Hernandes:

“Se perguntarem se você gostou do coelho, diga que sim.”

Não foi a primeira vez que eu, digamos assim, “paguei mico” (no caso, “paguei coelho”), por causa dessa minha mania de colecionar pratos souvenires. Semana passada, fui ao Pato com Laranja, também no centro do Rio. A mesma coisa. O prato era “agnolloti de cordeiro com molho de tomilho com menta”. A moça, que parecia ser a dona do restaurante, também veio com a mesma conversa. É contado, não pode, tem que pedir o prato respectivo. Chorei, disse que era carente, filho único, “rei do filé com fritas”, e consegui.

No Rancho Inn, na Rua do Rosário, fui mais feliz e não precisei disfarçar. O prato da Boa Lembrança é uma sobremesa: “poire fourèe”. Bem: pêra é fruta de velho, segundo o escritor Mário Prata, mas adoro.

No Giuseppe, onde o prato é “gnocchi melanzane”, não precisei apelar. Sou amigo de um dos garçons e ele deu um jeitinho de adaptar o gnocchi ao meu gosto, digamos assim, inusitado.

No Sagrada Família, comi sem problemas o “cinghiale in chianti”, sem saber que colocam ricota (que nunca provei, mas não gosto) no gnocchi de aipim.

Mas “mico” mesmo passei em Estocolmo. Descobri um restaurante em Old Town que tem a promoção do prato. Só que, para consegui-lo, eu tinha que comer algo parecido com “örtkryddad köttfärs till past”. Pelo nome, senti que jamais comeria aquele treco.

Conversa vai, conversa vem, acabei convencendo o maitre a me ofertar o prato souvenir, mesmo eu pedindo um espaguete ao sugo.

Só que o cara me trouxe um com a inscrição “Michelangelo 2000”. Ora! Michelangelo 2000 pode ser em qualquer lugar. Queria o prato que estava exposto na parede, escrito Stokholma (assim mesmo; diferente). Não sei como é “chato” em sueco, mas tenho certeza que foi disso que ele me chamou. Mas consegui.

Viajei mais de 10 mil quilômetros com aquele troféu nas mãos com o maior cuidado para não o quebrar.

Hoje, depois de levar o Wilson para comer o tal do coelho chocolatado, que ele garantiu ser uma delícia, peguei o folhetinho promocional e já estou pensando em visitar todos os restaurantes da Boa Lembrança. São mais de 50 (já fui a cinco) em 13estados do Brasil. Depois deste artigo, ou me proíbem de entrar nos restaurantes ou completam a minha coleção. Difícil vai ser fazer meus amigos acreditarem que comi esses pratos todos. Mas, pelo menos, ninguém vai me gozar por comer o prato do Sushi Garden: “Namorado japonês”. Esse eu não peço de jeito algum. Só se o Wilson for comigo.

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