O amigo do “hômi”
Paulo Cezar Guimarães
Aliás, nesta terra,
todo mundo era amigo
do Doutor Roberto.
HÁ ALGUNS ANOS, quando Roberto Marinho ainda era vivo, levei um grupo de alunos para conhecer o Parque Gráfico de O Globo, no Rio de Janeiro. Antes do início da visita, fomos encaminhados a uma pequena saleta onde foi mostrado um vídeo sobre o jornal e foram detalhadas algumas informações complementares. De repente, tocou o meu celular. A princípio, fiquei meio sem graça e pensei em desligá-lo imediatamente. Mas como a linha caiu, resolvi tirar um “sarro” com os alunos.
“Pois não ‘doutor Roberto’. Está tudo indo bem. Acabamos de chegar e...”
Ninguém entendeu nada. Primeiro o silêncio. Depois uma gargalhada geral. Afinal, os alunos conhecem o meu estilo.
Na volta, lembrei-me de algumas histórias verídicas envolvendo o nome de um dos homens mais famosos do Brasil. Algumas delas, vivenciei nos tempos de repórter de O Globo; outras ouvi falar. Uma delas, aconteceu comigo mesmo.
“Chefia de Reportagem, Boa Tarde”.
“Quem está falando?”
Era ele. ‘Doutor Roberto’. O próprio. Em carne e osso, ou melhor, em viva e rouca voz. Tremi, mas decidi enfrentar a “fera”.
“É Paulo Cezar Guimarães, ‘Doutor Roberto’, sou repórter”.
“Quem está no “aquário”? (lugar onde fica o editor-chefe, para os não iniciados).
“Não sei, ‘Doutor Roberto’. Ninguém chegou ainda.” (Era pouco mais de meio-dia e os editores, todo mundo sabe, chegam mais tarde à redação, por causa do fechamento).
“Tenho aqui um editorial e vou pedir para você anotar”.
“Pois não, ‘Doutor Roberto’”.
O homem ditou palavra por palavra. No fim, pediu para eu ler o que havia anotado.
Nunca tremi tanto na minha vida. Ainda bem que não deixei de fora nenhuma vírgula.
Aliás, nesta terra, todo mundo era amigo do Doutor Roberto. Entre empresários e políticos, então, não existia um assessor do assistente do adjunto do secretário que nunca tinha deixado de visitar sua mansão no Cosme Velho. Não devia haver um repórter no jornal (e creio que na tv e na rádio também) que nunca tenha ouvido a ameaça: “Vê lá o que você vai escrever. Sou amigo do ‘Doutor Roberto’”.
Tinha uns que ainda insinuavam uma intimidade, tratando o homem de igual para igual, como se ele fosse apenas ‘Roberto’. Dizem até que um dos principais motivos de o saudoso Walter Clark, ex-todo poderoso da Globo, ter sido demitido da empresa foi o fato de ousar chamá-lo de “Roberto”, e não “doutor Roberto” como todo mundo.
Como todo mundo, não. Três pessoas o chamam de pai: Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto. E conta a lenda que o mais novo, Zé Roberto, como é tratado até hoje por todos os repórteres com quem conviveu, foi “vítima” de um amigo do “doutor Roberto”. Zé, ou melhor, o caçula (não sei o dia de amanhã, é melhor eu me cuidar), estagiou na redação do Globo, como todos os irmãos, para conhecer de perto o funcionamento do jornal. Saía com os jornalistas mais experientes para acompanhar as reportagens. Numa dessas saídas, foi surpreendido com a insistência do entrevistado em dizer que era amigo do “doutor Roberto”.
“Olha lá o que você vai botar na sua matéria. Sou amigo do ‘doutor Roberto’”.
Depois da quarta ou quinta vez que ouviu aquilo, José Roberto ficou chateado com a ameaça e resolveu desmascarar o sujeito.
“O senhor é amigo do ‘doutor Roberto’?”.
“Sou. Por quê?”.
“Eu também”.
“Você está querendo me gozar? Pensa que eu estou brincando?”.
“Não. De forma alguma. Inclusive, hoje à noite vou jantar com ele em casa e vou contar que estive com o senhor. Ele é meu pai”.
Dizem que o cara ficou literalmente sem pai nem mãe. Zé Roberto, o repórter e o fotógrafo quase morreram de rir no trajeto entre a casa do ‘amigo do doutor Roberto’ e o jornal.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
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