quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A vingança da lagartixa

A vingança da lagartixa
Paulo Cezar Guimarães

De longe, observei duas lagartixas adultas
com ar ameaçador, como que jurando vingança.


VOCÊS PODEM PENSAR que endoidei de vez, mas estou sendo vítima de uma conspiração. Acho que estão querendo cometer algum tipo de atentado contra mim. Chego a pensar até que é coisa da CBF, dos torcedores do Flamengo, da CIA. O mestre Fernando Sabino também já foi vítima, quando escreveu uma crônica sobre atentado semelhante que sofreu.

Quem está me perseguindo? Duas eublepharis macularius, nome científico das lagartixas. Pode ser uma lagartixa e um lagartixo, casados, ou talvez amantes. Quem sabe um casal homossexual. Mas unidos contra mim, com certeza.

E tudo por quê? Vingança. Há dois ou três dias, uma lagartixinha tentou entrar diversas vezes na minha casa. Travei um jogo de gato e rato, ou melhor de gente e lagartixa, com ela. Fiz cara feia, ameacei, gritei. Tentei entrar num acordo. Disse-lhe que poderia ficar do lado de fora, na varanda, mas entrar na sala jamais. Para quê? Como uma lagartixa adolescente, aí mesmo é que não me respeitou. Decidi então ameaçar: “se você tentar entrar na minha casa, chamo o Odvan pra te dar uma tesoura voadora”. Juro que cheguei a ouvir aplausos dos mosquitos, que, de longe, acompanhavam toda aquela discussão. Indiferente, ela deu um sorriso debochado e abocanhou o mosquito que parecia ser o líder dos rebeldes.

Fiquei revoltado. Peguei um desses sprays de matar baratas e besuntei-a todinha. A infeliz correu e escondeu-se atrás de uma fresta da porta. Já totalmente equipado, com vassoura, rodo e espanador, ameacei cantar um pagode se ela não saísse do esconderijo.

Enfim, rendeu-se. Cheguei a ficar com pena da bichinha, mas poderia ficar mal com aquele bando de mosquitos que aguardava o final do combate. Dei-lhe uma vassourada. Como sempre acontece nessas situações, o rabo foi para um lado e o resto do corpo para outro. Num ato de fúria, saí “martelando” as duas partes e gritando alucinadamente, para espanto dos meus vizinhos de condomínio, que, a essa altura, se acotovelavam diante da minha varanda, dividindo opiniões sobre a cena que presenciavam. Uns me chamavam de criminoso, outros torciam por mim. A bichinha estrebuchou, derrotada. Foi um “oh” geral.

Esgotado, suando em bicas, recostei-me num banco, sem condições de comemorar minha vitória. De longe, observei duas lagartixas adultas com ar ameaçador, como que jurando vingança. Desde então, o casal vem me vigiando. Já conhecem até meus horários. Tenho conseguido despistar a dupla, mas temo um ataque fatal ao meu domicílio.

Agora há pouco mesmo, elas tentaram me enganar, usando uma estratégia de guerra. Atacaram por baixo, simultaneamente. Dei uma cassetada em uma delas, que se fingiu de morta, caindo de barriga para cima, enquanto a outra me dava um drible por debaixo das pernas, como se eu fosse um João Qualquer tentando marcar o Garrincha. Virei-me para buscar o spray que escondi no meio do vaso de samambaias da minha mulher, e as duas lagartixas sumiram.

São quase quatro horas da manhã, e não consigo dormir.

Após uma pesquisada na Internet, descobri que as lagartixas vivem em média oito anos e que põem um ou dois ovos por “postura” (?), que eclodem após 42 a 84 dias de incubação. Acordei minha filha e mostrei-lhe este texto, pensando em transformá-lo num manifesto contra as lagartixas de todo o mundo. Ela desdenhou: “para quê? Qual o objetivo?”.

Olhar fixo na janela do meu quarto, aguardo, a qualquer momento, um ataque em massa de milhares de lagartixas, como na cena daqueles pássaros do filme de Alfred Hitchcock.

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