Trato com Jeová
Paulo Cezar Guimarães
"Converso muito com Jeová.
Sonhei que ele tinha
pedido uma para trabalhar".
DEU NO GLOBO: duas mulheres foram esquecidas dentro de um cinema em Copacabana, com as luzes apagadas e as portas trancadas. Tinham ido ao banheiro assim que terminou o filme “Encontrando Forrester”, com o ator Sean Connery.
"Éramos as últimas de uma fila de cinco mulheres. Na nossa vez, as luzes se apagaram. Ainda tentamos gritar, mas foi em vão", contou uma delas.
Por sorte, as duas estavam com seus telefones celulares nas bolsas e, mesmo no escuro, conseguiram ligar para a Polícia Militar.
Adoro esse tipo de assunto. A gente trabalha, mas se diverte também. Fiz muitas matérias assim no Globo. Na época em que Brizola era o Governador do Rio de Janeiro, foi uma festa; todo dia, um caso inusitado.
Teve um dia em que a bancada do partido de Brizola foi ao Palácio Guanabara se reunir pela primeira vez com o Governador, durante um almoço. Antes do encontro, revoltados pela demora em serem atendidos nas suas reivindicações, todos garantiam que iam “fazer e acontecer”.
"Tenho aqui um caminhão de solicitações, e ele vai ter que me atender", disse um deles.
"Se ele não atender ao meu pedido, vai ver só", garantiu outro.
"Podemos até sair do partido", esbravejou um mais exaltado.
No final, saíram todos felizes. Ninguém, entretanto, queria dizer o que tinha acontecido na reunião. Muito menos se os pedidos tinham sido atendidos. Um dos deputados chegou a brincar com a Imprensa, dizendo que tinha comido um franguinho com umas batatinhas, mas que não contaria mais nada para os repórteres. Dia seguinte, a matéria publicada no Globo saiu com o seguinte título:
“PDT almoça frango e batatinha com Brizola”.
Outra vez, numa campanha para Prefeito da cidade, fui fazer uma matéria sobre a inauguração de um comitê do deputado Jorge Leite, então candidato do PMDB.
A “novidade” seria a distribuição de centenas de litros de leite. Só que o deputado, resfriado, não pôde comparecer à solenidade, e a maior parte do leite ficou encalhada. No outro dia, título da matéria de O Globo:
“Em inauguração de comitê do PMDB, falta Jorge mas sobra leite”.
Certa ocasião, ao chegar à Redação, fui surpreendido pelos elogios do colega Luis Erlanger, à época repórter.
- PC: adorei a sua matéria sobre o mendigo. Morri de rir.
Tinha feito uma reportagem sobre um mendigo bêbado, preso por PMs e levado para a delegacia do Méier.
"Quem mandou trazer este chato para cá?", perguntou o delegado aos soldados.
Evidente que abri a matéria com essa pergunta. No texto, contava a resistência do mendigo, velho conhecido do pessoal da delegacia, em ser liberado da cadeia.
"Fui preso, tenho que ir pro xadrez. É bom que não almocei ainda, e o senhor vai garantir a minha bóia", foi uma das frases que o mendigo disse para o irritado delegado.
Mas uma das matérias em que mais me diverti foi sobre a mala misteriosa encontrada na Cinelândia. Mala de verdade mesmo; aquelas do tipo 007.
Abandonada junto à praça em frente ao obelisco, causou pânico entre os policiais, provocou um engarrafamento na Avenida Rio Branco, que durou mais de duas horas. A área foi evacuada, e uma equipe de peritos em desativação de bombas enviada ao local.
Depois de uma cautelosa operação, em que foi prudentemente cortada por uma faca especial, a revelação do conteúdo: um caderno de anotações, dois livros religiosos, a Bíblia, uma bermuda, um creme de barbear, uma escova de dentes, um vidro de loção e uma cueca. A multidão já começava a se dispersar quando alguém gritou:
"A mala é minha, gente. O que fizeram com ela?".
Era um garçom de 27 anos, chamado Josué, devoto de Jeová, a quem garantiu ter emprestado a mala.
"Converso muito com Jeová. Sonhei que ele tinha pedido uma para trabalhar".
Levado para a delegacia, ainda arrumou encrenca com o delegado.
"Quero saber quem é que vai me dar uma mala nova. Vocês parecem doidos. Só mesmo o Espírito Santo para cuidar de vocês".
Foi encaminhado para uma clínica de doentes mentais.
terça-feira, 21 de outubro de 2008
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