Tia Fátima é o caramba!
Paulo Cezar Guimarães
Outro dia, numa esquina de Ipanema,
dei uma bronca num desses meninos
que vendem bala no sinal só porque
ele veio com esse papo de tio.
TÁ CERTO: podem me chamar de tio. Já passei dos 40, tô meio barrigudo, ficando careca, e não perco um show do Roberto Carlos no Canecão. Mas chamar a Fátima Bernardes de tia é sacanagem. Eu não admito.
Explico: outro dia, conversando com uma aluna na faculdade, ela me disse que morava no Méier. Contei que a Fátima Bernardes, no início da carreira, quando trabalhava no Jornal de Bairros de O Globo, também morava no Méier. Sei disso, porque sempre morei nas proximidades do Grajaú e, antigamente, nas redações, quase todo mundo morava na zona sul; quem morava na zona norte era encarado como pingüim na praia.
Mas, voltando ao papo com a minha aluna, ela me disse que “a Tia Fátima tinha sido professora de balé dela e que ...”
“Péra aí!” – exclamei.
“Tia o quê?”, perguntei.
“Ué, Tia Fátima. Era assim que a gente chamava ela...”.
Olhei a moça de cima a baixo, constatei que tinha pouco mais de 20 anos, mas fiquei indignado assim mesmo.
“E a Tia Fátima, quer dizer, a Fátima nunca reclamou?”.
“Reclamar por quê?”.
Fiquei revoltado. Com a garota, por achar normal chamar a Fátima de tia, e com a Fátima, por não reclamar.
Na faculdade, meus alunos, quando querem me gozar, me chamam de tio. Tio PC pra lá, tio PC pra cá.... É duro! Alguns desavisados, no começo do ano letivo, me chamam também de senhor. Pô: senhor é porteiro!
Outro dia, numa esquina de Ipanema, dei uma bronca num desses meninos que vendem bala no sinal só porque ele veio com esse papo de tio.
“Qual é cara? Tá pensando o quê? Você parece mais velho do que eu. Sou da geração de Woodstock, fui hippie, tenho todos os discos do Jimmi Hendrix, Led Zeppelin, Pink Floyd e The Who. Você vai chegar na minha idade e quero...”.
Quase fui multado pelo guarda municipal que, de longe, acenava para eu acelerar, enquanto uma dezena de carros buzinava atrás de mim.
Voltando, mais uma vez, à Tia Fátima, ou melhor à Fátima, fico imaginando a cena:
Fátima chega com o carro no estacionamento e o guardador, um negão (ou afordescendente, para ser politicamente correto) de dois metros de altura, barba cerrada, camisa do Flamengo, sandália 43, pergunta:
“Tia: posso tomar conta?”
Se ainda fosse o Tio William (Bonner)...
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
2 comentários:
Essa de "tio" é muito boa rs Fico imaginando a sua reação na sala de aula kkkkk
Abraço grande.
hehehe
Obrigado pela visita e comentário, Rodrigo.
Postar um comentário