terça-feira, 7 de outubro de 2008

Sinatra sick, me mifu

Sinatra sick, me mifu
Paulo Cezar Guimarães

E aquele foi o último show de Frank Sinatra,
pois depois do "sick", veio o "dead" e eu "dance.


FRANK SINATRA e eu temos uma história em comum. Talvez ele tenha morrido sem saber.

Eu estava em Nova Iorque, pela primeira e única vez até o momento, e passava quase todos os dias em frente ao Radio City Music Hall. Em cartaz: ele, o próprio, com olhos azuis e tudo. Eu pensava: "é claro que eu não tenho dinheiro para ver", "é claro que não tem mais ingressos".

Tinha comprado ingressos para assistir, todas as noites, os espetáculos da Broadway. Vi "Cats" (e subi no palco para ver os gatos, ou melhor, as gatas, de perto), "O Fantasma da Ópera" (de onde eu estava, só identifiquei que era o Fantasma porque comprei o programa da peça), "Miss Saigon" e outras mais que não me lembro agora. Iria embora, num sábado de manhã, e na sexta à noite já tinha comprado entrada para "Os Miseráveis". Sou exagerado mesmo.

Na sexta, à tardinha, passo pelo Radio City, e, de onda, resolvo testar o meu "ingrês". Pergunto ao bilheteiro do teatro se ainda havia ingresso para o show do homem. Tinha. Não acreditei. Quanto? "US$ 100", ele respondeu. Puxei o cartão de crédito e fiquei torcendo para o limite ainda não ter estourado. O barulhinho da máquina evitou que eu passasse vergonha no idioma de Shakeaspeare e me deixou eufórico.

"Eu, PCzinho do Grajaú, em New York City, assistindo Frank Sinatra ao vivo no Radio City! Te cuida, Latorraca". Não consegui pensar mais em outra coisa durante as poucas horas que antecederam ao show.

Às 19h50 em ponto, lá estava eu ao lado da fina flor da Mangueira, digo, de Nova Iorque, depois de desviar de limousines e seguranças que a gente só vê nos filmes de Arnold Shwarzeneger. Improvisei um terno a la Mário Fofoca, aquele antigo personagem do ator Luis Gustavo (não me lembro agora em que novela) Meu lugar era excelente, na galeria, primeira fileira, em frente ao palco. Eu ria e falava sozinho.

"Meu Deus, não pode ser verdade. Eu vou ver Sinatra em Nova Iorque!". E ainda cantarolava, baixinho, "New York, New York". "Tantantan tan tan tan..." (sei lá como se cantarola isso!).

20h: silêncio no Brooklin, ou melhor, no auditório (e eu sou maluco de chamar aquele público de galera?). O locutor dá um leve pigarro e anuncia:

"Ladies and gentlemans..."(e eu me ajeito na poltrona) "Mr. Sinatra is sick..."

Admito saber pouco mais do que "The book is on the table", mas à aula do "sick" eu não faltei. Poderia ser headache, mas não. Era "sick" mesmo. Não ouvi mais nada. O movimento das pessoas indicava, claramente, que não haveria show. Se Neruda confessa que viveu, eu confesso que chorei. Meu mundo caiu. Só ouvia o barulho das jóias saltitantes de gordas senhoras, como bem descreveu John Lennon. Era um tal de "fock" pra lá, "fock" pra cá, e eu sem entender nada.

"E agora? Vão devolver pelo menos o dinheiro do ingresso?", pensei. Um funcionário do teatro subiu o degrau da escadaria e disse algo semelhante a: "vocês podem passar a partir de amanhã que nós devolveremos o dinheiro...". No meio da confusão, ainda tentei argumentar com o cara: "please, Mr. I am a brazilian man and... and... (and o quê? Não conseguia dizer mais nada).

Voltei frustrado para o Brasil. Um mês depois, ao receber o extrato do cartão, estavam lá descontados os 100 dólares do show. Não acreditei. Mandei carta para a administradora, e eles alegaram que eu deveria ter reclamado no dia seguinte ao show. Mas como?

Tomei um trambique do Radio City de Nova Iorque.

E aquele foi o último show de Frank Sinatra, pois depois do "sick", veio o "dead" e eu "dance.

2 comentários:

Gustavo do Carmo disse...

Lembro que foi vc quem deu a notícia da morte do Sinatra na sua aula de Leitura de Jornal na FACHA. Eu estava lá.

No ano seguinte cheguei no laboratório, atrasado para a aula de Técnica de Reportagem com o César Costa quando vi no quadro branco "Fazer um roteiro de reportagem sobre a morte do escritor Dias Gomes". A primeira pergunta que me fiz: "Ué! O Dias Gomes morreu?!" Se eu fosse a gostosa da filha dele (que era criança na época) eu teria tido um treco se soubesse da morte do meu pai desta maneira.

Logo concluo que você e o César são especialistas em obituários (hehehe)

Visite o meu blog www.tudocultural.blogspot.com

Quinta-feira tem "Entre 15 e 30 Linhas" com Stanislaw Ponte Preta.

Se puder indicar o meu blog para o Joaquim, agradeço.rs

Abraço
Gustavo do Carmo

pc guimarães disse...

Vou lá ver, Gustavo. E não me compare ao César. Tenho um nome a zelar (rs)