quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Sem perna, a Guanabara não anda

Sem Perna, a Guanabara não anda
Paulo Cezar Guimarães

Ao entrevistar o repórter policial Luarlindo Ernesto, caricata e folclórica figura que trabalhou muitos anos no Jornal do Brasil, quis saber se ele tinha apelido. E ele me respondeu:



QUEM NAVEGA na Internet já teve, com certeza, a curiosidade de entrar num desses chats da vida. Tem de tudo. Os nomes usados pelas pessoas para se identificarem são os que mais me chamam a atenção; na maioria dos casos, para se esconderem no anonimato. São os chamados nicks, ou apelidos. Alguns impublicáveis. Tem salas que são adequadas para isso. Afinal, o que alguém espera encontrar nas salas de Imagens Eróticas? Certa vez, já há alguns anos, quando comecei a navegar na Rede, resolvi brincar também e entrei numa sala com o nick de Sargento da PM.

- Mão na cabeça! Documento de todo mundo. O que você tem nesse bolso? Teje preso!

Foi um auê danado. Todo mundo entrou na farra e me diverti muito. Com certeza, sobre isso, cada um de nós tem uma história interessante para contar.

Mas esse negócio de apelido lembra meus tempos de estudante universitário.

Na Facha, onde estudei, tinha um colega chamado Adão. Como falava muito palavrão, o apelidamos de Boca Negra. E, para não perder a viagem, ou melhor, a fama, toda vez que alguém chamava Adão de Boca Negra, ele respondia na bucha, seco, e com um prazer inenarrável:

- Boca Negra é a Puta que Pariu.

Lembro-me que, certa vez, em sala de aula, Adão chegou atrasado. Pra quê? Um sacana murmurou do fundo da sala: - Atrasado hein, Boca Negra! E Adão nem tomou conhecimento da presença do professor em sala:

- Boca Negra é a puta que pariu, respondeu na hora.

O tempo passou, e nunca mais vi Adão (êta língua!). Anos depois, repórter de O Globo, estava participando de uma entrevista com o governador Leonel Brizola, no Palácio Guanabara, quando chega o repórter de uma rádio. Era ele: Adão. Olhei para o cara, mas não falei nada. Apenas sorri, maroto, lembrando do seu apelido. E Adão não perdeu a viagem:

- Boca Negra é a puta que pariu!

Ninguém entendeu nada. Imaginem Leonel!

Mas esse negócio de apelido, ou nick, lembra infância, onde todo mundo tem apelido. Eu tive a minha infância e me lembro de alguns apelidos supercriativos. Como o de Paulo Roberto, o Paulinho Vantantan. Explico. Paulinho era aluno do Colégio Militar e, na pauta, o número 21. Na aula de francês, a professora fazia a chamada, ditando o número em francês. Paulinho era o Vantan. Então, como também era meio doido, resolveram chamá-lo de Vantantan.

Mas havia outros. Sergio Bicudo, Renato Chatolino, Rato Branco, Julio Pacote, Julio Careca, Babá, Wilson Marginal, Fuzil, Jorge Alfinete, Paulo Coxudo, Oswaldo Tartaruga, Tuninho Arataca, Mongol (aquele ex-parceiro do Oswaldo Montenegro, que compôs Agonia), Fernando Galã, Roberto Me Garanto, Orlando Tanajura.

A razão desses apelidos podia ser um defeito físico qualquer (adolescente, todos sabemos, é cruel), a forma de andar, a origem da família. O entregador da farmácia do Luis 20 anos, tinha defeitos no dente e virou 1001. E o irmão do Cara de Peido (sic) que mancava? Tinha dois apelidos: Pé com pano, Pé sem pano e Tá fundo, tá raso. Sem falar no fotógrafo do bairro, o Pé Sujo, ou o conquistador das domésticas desamparadas, o Cauby.

Muitos desses apelidos são comuns em outras turmas, em outros bairros. Toda turma tem um Maluco, por exemplo. Outro dia, encontrei Tarzã na rua. Mudou muito. Hoje, jamais seria chamado de Tarzã. Sua barriga está maior do que a do Eurico Miranda. Se continuar assim, vai acabar virando Wilza Carla. E o que será que foi feito da Soninha Toda Pura?

Em Vila Isabel, onde moro hoje, existia um cara com um apelido curioso: Perna. Foi candidato a deputado e criou um slogan bastante interessante nos tempos em que o Rio de Janeiro ainda se chamava Guanabara: "Sem Perna, a Guanabara não anda!"

No meio jornalístico, também tem muita história de apelido. O futebol, a política e a reportagem policial são áreas ricas nessa arte de apelidar os outros. Tuca, Puruca e Maritaca, Amoral Nato e Toninho Malvadeza (ou Toninho Ternura para alguns) ou Cara de Cavalo, Bandido da Luz Vermelha e Escadinha estão - ou estiveram - aí para não me deixarem mentir. Certa vez, fiz uma matéria para O Globo sobre apelidos. Ao entrevistar o repórter policial Luarlindo Ernesto, caricata e folclórica figura que trabalhou muitos anos no Jornal do Brasil, quis saber se ele tinha apelido. E ele me respondeu:

- Um cara com o meu nome precisa de apelido?

5 comentários:

Vinícius Barros disse...

Deu hoje no extra um cara chamado BIGURRILHO... se naum me engano, ele matou o amante da mulher dele no flagra!!!

*naum sei se foi hj ou ontem

Vinícius Barros disse...

ae: http://odia.terra.com.br/rio/htm/homem_mata_por_ciumes_da_amante_206489.asp

Ítalo Meneghetti Filho disse...

Paulo César,

eu conheci pessoalmente o saudoso "Perna", que era filho de um médico generoso que tirava um dia da semana para dar consulta de graça em sua casa, na rua Visconde de Abaeté, pouco de depois do famoso bar Petisco da Vila, no mesmo lado da calçada. Lá morava toda a família do Perna. Depois que ele morreu, tempos depois a família vendeu a casa, que fica em frente à primeira esquina, depois de quem se afasta do Pestisco da Vila, seguindo pela rua Visconde de Abaeté no rumo da rua Torres Homem.

Perna era aposentado com trinta e pouquinhos anos devido a transtornos mentais, que, segundo muitos, não passavam de simulação dele para "armar" e se aposentar mais cedo. Verdade ou mentira, o fato é que ele era um cara super bacana com todo mundo, muito popular e querido nas ruas. Verdadeiro embaixador de Vila Isabel, tanto que ganhou a função informal de "Prefeitinho da Vila", pois se você reclamasse para ele sobre algum problema no bairro ele realmente agitava logo e tomava as devidas providências e a coisa funcionava!

O apelido de "Perna" era devido ao seu porte: era um cara bem alto, cerca de 1,90m, e um par de pernas por demais de longas e arcadas para trás. Parecia uma garça, mal comparando. Era calvo na parte superior da cabeça, tinha um narigão batatudo, olhos esbugalhados e uma voz gravíssima, que se ouvia de longe, inquestionavelmente.

Por vezes dava uns acessos de "loucura" e saia quebrando coisas na rua. Era internado e quando voltava ficava tudo normal e todos o adoravam. Era amigo de todo mundo. Unanimidade.

Em 1974 se candidatou a vereador pelo PMDB, que à época era MDB e os seus cabos eleitorais pintavam em tudo que era muro de Vila Isabel e da cidade do Rio de Janeiro: "Perna 74". Este 'slogan' enfestou os muros da ruas, sobretudo da Avenida Edson Passos, a Estrada do Alto da Boa Vista.

O 'slogan' "Sem Perna a Guanabara não anda" era outro muito divulgado.

Perna vivia no bar Petisco da Vila. Encontrá-lo, era só ir por lá. Perguntem aos donos do bar, aos garçons bem antigos, que devem ter fotos dele por lá, nos guardados do bar, que preza muito por essa coisa de memória popular de Vila Isabel. Outro que o conheceu muito bem e era amigo dele, viviam juntos no Petisco da Vila, é o Martinho da Vila. Conversem com o Martinho e ele vai contar direitinho tudo sobre o saudoso, inesquecível e peculiar Perna, desses personagens da cena carioca que ficam para sempre no imaginário e na memória coletiva.

Abração e, legal, você ter falado no Perna.

Prof. Dr. Ítalo Meneghetti Filho
Morador de Vila Isabel nos anos de 1970, 80 e até 94.

Ítalo Meneghetti Filho disse...

[Texto revisado por Ítalo Meneghetti Filho]

Paulo César,

eu conheci pessoalmente o saudoso "Perna", que era filho de um médico generoso que tirava um dia da semana para dar consulta de graça em sua casa, na rua Visconde de Abaeté, pouco de depois do famoso bar Petisco da Vila, no mesmo lado da calçada. Lá morava toda a família do Perna. Depois que ele morreu, tempos depois a família vendeu a casa, que fica em frente à primeira esquina, depois de quem se afasta do Pestisco da Vila, seguindo pela rua Visconde de Abaeté no rumo da rua Torres Homem.

Perna era aposentado com trinta e pouquinhos anos devido a transtornos mentais, que, segundo muitos, não passavam de simulação dele para "armar" e se aposentar mais cedo. Verdade ou mentira, o fato é que ele era um cara super bacana com todo mundo, muito popular e querido nas ruas. Verdadeiro embaixador de Vila Isabel, tanto que ganhou a função informal de "Prefeitinho da Vila", pois se você reclamasse para ele sobre algum problema no bairro ele realmente agitava logo e tomava as devidas providências e a coisa funcionava!

O apelido de "Perna" era devido ao seu porte: era um cara bem alto, cerca de 1,90m, e um par de pernas por demais de longas e arcadas para trás. Parecia uma garça, mal comparando. Era calvo na parte superior da cabeça, tinha um narigão batatudo, olhos esbugalhados e uma voz gravíssima, que se ouvia de longe, inquestionavelmente.

Por vezes dava uns acessos de "loucura" e saia quebrando coisas na rua. Era internado e quando voltava ficava tudo normal e todos o adoravam. Era amigo de todo mundo. Unanimidade.

Em 1974 se candidatou a vereador pelo PMDB, que à época era MDB e os seus cabos eleitorais pintavam em tudo que era muro de Vila Isabel e da cidade do Rio de Janeiro: "Perna 74". Este 'slogan' infestou os muros da ruas, sobretudo da Avenida Edson Passos, a Estrada do Alto da Boa Vista.

O 'slogan' "Sem Perna a Guanabara não anda" era outro muito divulgado.

Perna vivia no bar Petisco da Vila. Encontrá-lo, era só ir por lá. Perguntem aos donos do bar, aos garçons bem antigos, que devem ter fotos dele por lá, nos guardados do bar, que preza muito por essa coisa de memória popular de Vila Isabel. Outro que o conheceu muito bem e era amigo dele, viviam juntos no Petisco da Vila, é o Martinho da Vila. Conversem com o Martinho e ele vai contar direitinho tudo sobre o saudoso, inesquecível e peculiar Perna, desses personagens da cena carioca que ficam para sempre no imaginário e na memória coletiva.

Abração e, legal, você ter falado no Perna.

Prof. Dr. Ítalo Meneghetti Filho
Morador de Vila Isabel nos anos de 1970, 80 e até 94.

casa coisas e muito mais disse...

Paulo César e Prof. ítalo,
Grata surpresa esta crônica e em especial este seu depoimento Ítalo.
Sem fronteiras as pessoas se encontram, e compartilham histórias cotidianas em escala astronômica.
Sou sobrinha do Perna, não tive a honra de conhece-lo pessoalmente, o conheci de ouvir falar, pois moro em Petrópolis, um pouco longe, física e temporalmente, desta raiz boêmia e idealista de que já se viveu pessoalmente, com nervos, hoje tudo parece meio arreflexivo, passivo de mais, em fim.
O que conheço desta história, é contada pela família de quem a de que se suspeitar, rs...
Nossa história é cercada de acontecimentos marcantes, contados com muito entusiasmo, mas nunca tinha ouvido esta história de uma pessoa “desconhecida” e que me mostrasse com outro olhar, me contavam sobre um tio, agora ouvi falar de uma personalidade, personificada em um homem de quase 2 metros de altura e alma ainda maior.
Hoje tenho 24 anos e sempre senti como se faltasse uma justificativa para alguns reflexos da minha maneira, meu jeito, inquietações sobre onde minhas raízes se firmavam e hoje, aaa hoje eu acredito nesta tal genética, sangue correndo nas veias, e pelo olhar de uma pessoa que eu não conhecia, mas que me conhece tão bem, eu pude entender da onde eu vim e por que, que eu sou.
Um abraço
Thalita Medina Sant’Anna