quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O milagre do boneco

O Milagre do “boneco”
Paulo Cezar Guimarães

O plano só não deu certo
por um pequeno detalhe.



ESSA EU COSTUMO contar aos meus alunos, para desespero dos professores teóricos (aqueles que reclamam dos “práticos” por ficarem contando historinhas do dia-a-dia das redações). A idéia é ilustrar o termo “boneco” nas aulas de Secretaria Gráfica, e o objetivo principal é familiarizar os estudantes com a linguagem jornalística.

Repórter e fotógrafo foram cobrir o velório de um policial morto numa troca de tiros com bandidos. Como ocorre em alguns casos, o policial foi velado em casa, no bairro de Bento Ribeiro, subúrbio do Rio. Rua de terra batida, iluminação precária e muitas... muitas casas com quintais repletos de mangueiras.

Já que falamos em manga, é importante lembrar que o motorista da equipe era Roberto Manga Rosa, uma figuraça de um tagarela gozador, que trabalhou no Globo nos anos 70 e 80. Manguinha, como era chamado pelos mais íntimos, gostava de acompanhar os repórteres e costumava dar opiniões na produção das reportagens.

Além de pegar o depoimento da mulher da vítima, o repórter deveria conseguir o “boneco” do falecido, mas não havia “clima” para isso. A viúva não parava de chorar diante do caixão do marido, e ninguém queria conversa com repórter e fotógrafo. Nisso, Manga chama o repórter num canto e diz:

"Chefia, tive uma sacada..."

A idéia até que era interessante. Manga tinha observado na parede da sala um desses retratos de formatura que se faziam antigamente. De beca, com toda a pompa e circunstância, lá estava a imagem do policial morto, à disposição do fotógrafo. Era só encontrar uma maneira de pegar o quadro. Manguinha, então, teve outra idéia “genial”:

"A gente dá um jeito de apagar a luz, eu pego o retrato, saio correndo, e vocês vêm comigo. Fazemos a reprodução, deixamos o porta-retratos com algum vizinho e saímos voando daqui. Já deixo o carro ligado".

O plano só não deu certo por um pequeno detalhe. Na pressa, Manga se distraiu e agarrou o quadro errado. Nada menos do que a imagem de Jesus Cristo, que estava justamente ao lado do retrato do falecido. Repórter e fotógrafo olharam para Manga sem saber se riam ou se choravam. A figura ainda tentou justificar:

"Chefia, juro que peguei o quadro certo. Só pode ter sido milagre ... ou castigo. A foto deve ter se transformado no caminho".

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