O entregador de pizzas
Paulo Cezar Guimarães
Mas a grande sacaneada que dei no Maurício
foi quando ele me chamou para assistir
a um jogo do Flamengo em sua casa, na Tijuca.
MAURÍCIO MENEZES, quem é do ramo conhece. Ex-repórter de O Estado de S. Paulo, ex-produtor e apresentador de programas na Rádio Globo e, nas horas vagas (que devem ser muitas), cômico e humorista. Temos uma “rixa” antiga: disputar para ver quem “sacaneia” mais o outro.
Como aquela do ponto do ônibus. Certa vez, eu estava num ponto perto de casa, quando Maurício passou, de carro, um Honda vermelho que tinha, antes de comprar a “Van" (eu costumo dizer que ele a usa para fazer lotação). Ao me ver, parou:
— Quer carona, PC?
Sério, abri a porta traseira, sentei-me no banco e, ainda com a porta do carro aberta, disse, em voz alta, diante de todo mundo:
— Pô, rapaz, já te falei diversas vezes para não atrasar. Estou aqui há mais de dez minutos. Depois, se eu te demito, levo fama de mau caráter, de durão... Vá andando, vá andando...
Bati a porta, botei a mão no queixo, virei o rosto pro lado, e fiz cara de contrariado. Nunca mais fui o mesmo naquele ponto. Durante muito tempo, senti que as pessoas passaram a me olhar de modo diferente.
Para quê? Meses depois, em São Paulo, durante uma festa de entrega do Prêmio Aberje, eu estava no banheiro, quando senti uma vassoura batendo no meu calcanhar. Pensei que fosse um faxineiro inconveniente, e me virei para dar uma bronca no sujeito. Dei de cara com Maurício, às gargalhadas, com uma vassoura nas mãos.
— Desculpe, doutor, desculpe doutor!
Final do ano passado, entrega do Prêmio Esso, no Rio, aproveitei para aprontar mais uma. Desta vez, com o Bruno, filho do Maurício. Enquanto nosso dublê de jornalista e artista divertia um grupo de “coleguinhas”, contando aquelas histórias malucas que ele sempre arruma, eu, quieto, estudava uma forma de sacanear o filho. Bruno, que não nega a origem, também estava a fim de aprontar comigo. Sem eu ver, durante o jantar, colocou uma colher no bolso do meu paletó, e ficou na dele. Quando levantamos, ele chamou a atenção de todo mundo e mostrou o que eu tinha “guardado” no bolso. Antes que todos caíssem na gargalhada, Bruno, ao vestir o paletó, displicentemente sobre o braço, deixou cair duas colheres, três facas, dois garfos e, de quebra, um guardanapo, que eu já havia colocado em seus bolsos durante o jantar.
Mas a grande sacaneada que dei no Maurício foi quando ele me chamou para assistir a um jogo do Flamengo em sua casa, na Tijuca. Passei numa pizzaria e comprei uma daquelas tamanho família. Ao chegar no prédio onde ele mora, apresentei-me ao porteiro como entregador de pizza. O porteiro não deve ter botado muita fé na minha aparência, apesar de eu estar vestindo calça de linho, gravata e paletó azul marinho. Fez o que os porteiros geralmente fazem: imprudentemente, mandou-me subir e foi interfonar depois.
Quando cheguei no andar do Maurício, toquei a campainha, e fiquei escondido atrás da embalagem da pizza, mostrando apenas o nariz e os olhos. Maurício entreabriu a porta, semi-trancada com aquelas correntinhas que “tijucano” adora instalar. Atrás dele, com os olhos arregalados, mulher, filho, nora, sogra e até o cachorro da família.
— O senhor tem certeza que foi daqui que...
Quase apanhei quando descobriram que era eu.
— Pô, cara, fui atender o interfone na cozinha, o porteiro falou que o entregador de pizza estava subindo, e eu, desligado, agradeci. Quando cheguei na sala, tinha sanduíches, salgadinhos, pipoca; comida que não acabava mais...
Perguntei: mas quem foi que pediu pizza? Ficou todo mundo calado.
Depois do susto, quem conseguia relaxar com o jogo na tv? A propósito, o Flamengo perdeu, e todos ficaram me acusando de ter “secado” o time deles. Logo eu? Depois dizem que botafoguense é supersticioso.
domingo, 5 de outubro de 2008
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