A enquete do Sarmento
Paulo Cezar Guimarães
"Dei a maior sorte.
Peguei um número de telefone,
liguei e caiu numa festa de criança".
TRABALHEI COM O SARMENTO NO GLOBO. Camisa para fora da calça, gravata com o laço frouxo e sempre com os óculos embaçados. Uma figura desleixada que, quando não
estava olhando para ontem, alisava o espesso bigode mal aparado e falava sempre da matéria que tinha acabado de escrever.
Subia e descia pela escada os dois andares da redação. Elevador? Jamais! Sorte dele que a redação do Globo não era no sexto andar, como era a do JB, na Avenida Brasil, 500. À época, os jornais tinham a mania de fazer enquetes sobre qualquer coisa que acontecia. O prefeito assinou um decreto? Faz uma enquete. Não sei quem perdeu
um pênalti... Faz uma enquete.
Teve uma vez que chegou uma notícia de que um casal tivera heptagêmeas na Noruega. O editor Milton Coelho da Graça pediu para repercutir o assunto.
“Vamos entrevistar mães”, exigiu.
“Pô, Milton, onde a gente vai arrumar mães às 23h?” E o Milton: “Vocês querem o quê? Querem um catálogo de mães?”
Até que apareceu o Sarmento.
Anotou num bloquinho: “Noruega, heptagêmeas, entrevistar mães etc.” Ficou parado alguns minutos olhando para os colegas na redação.
De repente, começou a escrever, sem parar:
“Como mãe, eu particularmente acho que são muitas crianças... Assinado: Maria Helena
da Silva, advogada...” No parágrafo seguinte: “Acho que patati patatá... Assinado: Fulana de tal, secretária, tantos anos...”.
Quando ele já estava no quinto depoimento, eu, de molecagem, falei:
“Sarmento, o que é isso? A gente está aqui há um tempão e não conseguiu nada. Você deu só um telefonema e já está na quinta mãe?!”.
E ele respondeu, com aquele jeito característico de falar:
“Sabe o que é? Dei a maior sorte. Peguei um número de telefone, liguei e caiu numa festa de criança. As mães fizeram fila para conversar comigo. E eu ainda estou na quinta, tem mais dez aqui!”.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
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