Sambão e Sinhá, às suas ordens!
Paulo Cezar Guimarães
"Um belo sábado logo que o grupo chegou para o “regabofe” semanal, Hélio colocou o telefone ao lado, abriu uma folha de papel com quadradinhos numerados e disse: "
Quem me contou essa história foi um amigo frequentador de um dos meus blogs, o Mário (não me perguntem quem é o Mário).
Ele lembra que tudo aconteceu no final dos anos 70, começo dos 80, quando existia na Rua Constante Ramos, em Copacabana, uma casa de shows chamada Sambão & Sinhá, comandada pelo cantor e humorista Ivon Curi. Nessa época, a casa vivia sempre cheia, havendo necessidade de reserva, principalmente nas noites de sábado.
Era uma época em que os bairros do Rio tinham as chamadas “Turmas de Rua”. Mário fazia parte de uma que frequentava a praia ali pela altura da Rua Bolívar, posto 5, próximo ao Sambão e Sinhá. No final da tarde, Mário e sua turma passavam pelo clube Olympico, na Rua Pompeu Loureiro, para beber umas cervejinhas e jogar conversa fora à beira da piscina.
Um casal amigo desta turma, Hélio e Maria, um pouco mais velhos que a média de idade da patota, que não era muito de ir à praia, costumava esperar o grupo no clube.
Maria era mineira, uma senhora cozinheira, e, normalmente, já deixava pronto em casa, na Rua Bulhões de Carvalho, conhecida como “Rua do Quase Quase”, um feijão, uma rabada, um mocotó ... “Comidinhas leves para um final de sábado”, como lembra Mário.
O número do telefone do apartamento deles era diferente do Sambão & Sinhá apenas pelo último algarismo. Como a telefonia naquela época era bastante ruim, bem mais do que agora, o pessoal que ligava para fazer reserva no Sambão & Sinhá caía no telefone do Hélio e da Maria, quando a linha original estava ocupada.
No começo, quem atendia sempre avisava que era engano e pedia para ligar novamente. Chegava-se a deixar o telefone fora do gancho, pois, caso contrário, a mesma ligação retornava errada.
Um belo sábado logo que o grupo chegou para o “regabofe” semanal, Hélio colocou o telefone ao lado, abriu uma folha de papel com quadradinhos numerados e disse:
“Ninguém atende o telefone”.
Na primeira vez em que o aparelho tocou, Hélio atendeu, empostou a voz e disse solenemente:
"Sambão & Sinhá, às suas ordens".
Diante da gargalhada coletiva, contou que no meio da semana tinha ido jantar no restaurante e que preparou um desenho aproximado da disposição das mesas, bar, palco etc...
Desse sábado em diante, nunca mais houve enganos nas ligações recebidas. Todas as reservas eram feitas, com opções de perto do palco, à direita do bar ou mesa central. O grupo ria muito pensando na confusão que, imaginavam, deveria ocorrer mais tarde.
Hélio e Maria não aprontam mais suas brincadeiras aqui embaixo. Segundo Mário, devem estar pregando suas peças lá em cima.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
sábado, 11 de julho de 2009
Na suíte com o Rei
Fiquei emocionado com o show dos 50 anos do Roberto Carlos no Maracanã e resolvi reproduzir esta antiga crônica. Espero que gostem. Do Rei e da crônica.
Na suíte com o Rei
Paulo Cezar Guimarães
"Ué, benhê, você sabe que estou preparando a minha tese para a faculdade. O prazo de entrega está quase chegando. Não posso perder tempo. Vai indo, que eu já vou".
Tadinho do Silvio Marinho. Oito anos de casamento, quatro filhos para criar, não via
a hora de passar um dia inteiro sozinho com a mulher. E esse dia chegou: seu aniversário.
"Mulher: vamos passar a tarde num motel".
Deixou as crianças na casa da sogra, pediu folga no jornal - onde trabalha até hoje como diagramador da editoria de Esportes -, pegou o carro emprestado da cunhada, e foram. Para bem longe, em Niterói. Num desses motéis que tocam todo o repertório do Roberto Carlos e servem drink para recepcionar os casais. A suíte, com nome de música do Rei, foi, digamos, escolhida a dedo: “Recordações”.
“Essas recordações me matam”, entrou feliz da vida, cantarolando o refrão da música, meio desafinado.
Tinha reparado que a mulher carregava uma bolsa grande, pesada. Não perguntou o conteúdo, mas imaginou que fossem roupas. Ou melhor, lingeries. Ao chegarem à suíte, telefonou para a copa e pediu cerveja para acompanhar o amendoim, com prazo vencido, que repousava há meses, sobre o freezer.
"Amor, você não vem?", indagou, ansioso, enquanto bulia no painel com jogo de luzes, interruptor de tv e rádio, ar condicionado etc.
Há muito não freqüentava um motel e se divertia como uma criança. Apaixonado, excitado, aumentou o volume quando ouviu os primeiros acordes de “Café da manhã”.
“Amanhã de manhã, vou pedir o café pra nós dois...”
"Amor, vem ver. Pra que serve isso aqui?"
"Já vou, benhê".
"O que você está fazendo?"
Levantou-se da cama, dirigiu-se àquele cantinho em que os motéis reservam para a mesa
de refeições, e surpreendeu a mulher numa tarefa incomum ao local onde estavam.
"Um laptop? Pra que você trouxe esse laptop?"
"Ué, benhê, você sabe que estou preparando a minha tese para a faculdade. O prazo de entrega está quase chegando. Não posso perder tempo. Vai indo, que eu já vou".
Homem sabe muito bem que, nessas horas, é melhor não encrencar. Fingiu que estava
tudo bem e decidiu dar uma caída na piscina.
"Amor, você não quer dar um mergulho?"
"Já vou, benhê".
Quase uma hora depois, já com os dedos das mãos murchos, devido ao contato excessivo com a água, saiu da piscina e foi fazer uma sauna. A caminho do banheiro, percebeu a mulher envolvida com livros, papéis e um gravador. Reparou que ela nem tinha tirado a roupa ainda.
“Meia taça, só os óculos”, pensou, meio sacana, desolado.
Ao sair da sauna já era quase noite. Ligou a televisão. Primeiro jogo da final da Copa do Brasil. Jogavam o Botafogo, seu time, e o Juventude, de Caxias do Sul. Ainda pensou:
“Que bom que estou de folga. A esta hora estaria na redação aguardando o fim do jogo. E estou aqui, numa boa”, pensou.
"Benhê, vou ver um pouco do jogo. Estou te esperando.
Foram as suas últimas palavras naquela noite. Recostou a cabeça no travesseiro e nem chegou a ver um dos dois gols alvinegros anulados pelo juiz.
Dormiu.
Na suíte com o Rei
Paulo Cezar Guimarães
"Ué, benhê, você sabe que estou preparando a minha tese para a faculdade. O prazo de entrega está quase chegando. Não posso perder tempo. Vai indo, que eu já vou".
Tadinho do Silvio Marinho. Oito anos de casamento, quatro filhos para criar, não via
a hora de passar um dia inteiro sozinho com a mulher. E esse dia chegou: seu aniversário.
"Mulher: vamos passar a tarde num motel".
Deixou as crianças na casa da sogra, pediu folga no jornal - onde trabalha até hoje como diagramador da editoria de Esportes -, pegou o carro emprestado da cunhada, e foram. Para bem longe, em Niterói. Num desses motéis que tocam todo o repertório do Roberto Carlos e servem drink para recepcionar os casais. A suíte, com nome de música do Rei, foi, digamos, escolhida a dedo: “Recordações”.
“Essas recordações me matam”, entrou feliz da vida, cantarolando o refrão da música, meio desafinado.
Tinha reparado que a mulher carregava uma bolsa grande, pesada. Não perguntou o conteúdo, mas imaginou que fossem roupas. Ou melhor, lingeries. Ao chegarem à suíte, telefonou para a copa e pediu cerveja para acompanhar o amendoim, com prazo vencido, que repousava há meses, sobre o freezer.
"Amor, você não vem?", indagou, ansioso, enquanto bulia no painel com jogo de luzes, interruptor de tv e rádio, ar condicionado etc.
Há muito não freqüentava um motel e se divertia como uma criança. Apaixonado, excitado, aumentou o volume quando ouviu os primeiros acordes de “Café da manhã”.
“Amanhã de manhã, vou pedir o café pra nós dois...”
"Amor, vem ver. Pra que serve isso aqui?"
"Já vou, benhê".
"O que você está fazendo?"
Levantou-se da cama, dirigiu-se àquele cantinho em que os motéis reservam para a mesa
de refeições, e surpreendeu a mulher numa tarefa incomum ao local onde estavam.
"Um laptop? Pra que você trouxe esse laptop?"
"Ué, benhê, você sabe que estou preparando a minha tese para a faculdade. O prazo de entrega está quase chegando. Não posso perder tempo. Vai indo, que eu já vou".
Homem sabe muito bem que, nessas horas, é melhor não encrencar. Fingiu que estava
tudo bem e decidiu dar uma caída na piscina.
"Amor, você não quer dar um mergulho?"
"Já vou, benhê".
Quase uma hora depois, já com os dedos das mãos murchos, devido ao contato excessivo com a água, saiu da piscina e foi fazer uma sauna. A caminho do banheiro, percebeu a mulher envolvida com livros, papéis e um gravador. Reparou que ela nem tinha tirado a roupa ainda.
“Meia taça, só os óculos”, pensou, meio sacana, desolado.
Ao sair da sauna já era quase noite. Ligou a televisão. Primeiro jogo da final da Copa do Brasil. Jogavam o Botafogo, seu time, e o Juventude, de Caxias do Sul. Ainda pensou:
“Que bom que estou de folga. A esta hora estaria na redação aguardando o fim do jogo. E estou aqui, numa boa”, pensou.
"Benhê, vou ver um pouco do jogo. Estou te esperando.
Foram as suas últimas palavras naquela noite. Recostou a cabeça no travesseiro e nem chegou a ver um dos dois gols alvinegros anulados pelo juiz.
Dormiu.
domingo, 22 de março de 2009
Como unha e cutícula
Como unha e cutícula
Paulo Cezar Guimarães
“As más línguas dizem que ele ao dormir ronca e baba na fronha, além de soltar gases poluentes ao ambiente. Por isso é acordado às 5 da manhã para vir logo para a entidade...”
AGORA VIROU MODA divulgar pela Internet as asneiras cometidas por estudantes de Comunicação em concursos para jornais, mas ao longo dos anos que dou aulas, venho colecionando verdadeiras pérolas capazes de fazer a alegria de Stanislaw Ponte Preta, se vivo fosse, preenchendo páginas e páginas do seu febeapá..
E tome “quiz”, “previlégio”, confusão entre a e há e muitas coisas capazes de corar a Ofélia, personagem daquele programa da Globo que fazia dupla com o ator Lúcio Mauro.
Mas é claro que há excessões (com dois s). Passaram pelas minhas mãos (no bom sentido é bom que se esclareça) gente como Carla Vilhena, João Pedro Paes Leme, Murilo Fiúza, Aziz Filho, Jason Vogel, Gioconda Brasil; hoje brilhando nos jornais, revistas e tvs.
E quando alguns se metem a fazer gracinhas? Num texto em que peço aos alunos para usarem da criatividade, já pintou coisa como “Dom Eugênio tomando água de coco em um quiosque em Copacabana”, “O bom de saltar um pum é que você não sabe de onde vai, nem de onde vem”,
Tem um trabalho de aluno que até hoje guardo e mostro como exemplo de imbecilidade em minhas aulas. Pedi uma entrevista em forma de pingue-pongue (perguntas e respostas) e o aluno ou viajou, ou me gozou ou é burro mesmo. Começava assim: “A ´idéia´ coordenada da desestruturação do ponto de vista psicológico não tem como estrutura arquivada da idéía principal do dissimulador”.
E continuava: “A origem não fornece dados ao conhecimento da maneira que a linguagem encadeia a atividade da ponderação psicológica da lógica a sua linguagem elabora a experiência da informação do ser”.
No final, ele ainda fez uma espécie de pedido: “Faça a análise da coordenação do sensorial do poder crítico da linguagem desestruturada da idéia psicomotora?“.
Mas não é apenas de universitários que coleciono asneiras. Guardo até hoje comigo um texto cometido por um sujeito que se diz jornalista e que assessorou uma entidade bastante conhecida no Rio de Janeiro. Certa vez, ele me procurou para me passar um “release” que tinha escrito em homenagem a um associado, que estava para completar 50 anos trabalhando no Brasil.
"Você não vai ter nenhum trabalho. O texto já está pronto. Eu mesmo fiz", disse ele.
E me passou o texto, que logo no início colocava o homenageado em uma situação pelo menos polêmica:
“...Esse seu jeito autêntico e inimitável, torna-o uma pessoa amada por uns e odiada por outros...”
Indisciplinada também: “Recordista em suspensões, nosso homenageado aos poucos se adaptou ao sistema e métodos da nossa entidade e não a nossa entidade a ter que adaptar-se aos seus sistemas e métodos”.
De personalidade forte, com certeza: “... Revolucionário nato, falando sempre alto, jogando a agenda no chão e operando de uma forma séria e eficiente, ele sempre foi homem de confiança para realizar-se um bom negócio. Na realidade a nossa entidade está para o nosso homenageado como o cérebro está para o coração; um não vive sem o outro..”
Mas de difícil convivência:
“As más línguas dizem que ele ao dormir ronca e baba na fronha, além de soltar gases poluentes ao ambiente. Por isso é acordado às 5 da manhã para vir logo para a entidade...”
No final, nosso assessor deu uma suavizada e passou uma mensagem digamos assim bastante positiva:
“Hoje este patrimônio ambulante tem uma relação com seus patrícios de irmão para irmão; como unha e cutícula”.
Paulo Cezar Guimarães
“As más línguas dizem que ele ao dormir ronca e baba na fronha, além de soltar gases poluentes ao ambiente. Por isso é acordado às 5 da manhã para vir logo para a entidade...”
AGORA VIROU MODA divulgar pela Internet as asneiras cometidas por estudantes de Comunicação em concursos para jornais, mas ao longo dos anos que dou aulas, venho colecionando verdadeiras pérolas capazes de fazer a alegria de Stanislaw Ponte Preta, se vivo fosse, preenchendo páginas e páginas do seu febeapá..
E tome “quiz”, “previlégio”, confusão entre a e há e muitas coisas capazes de corar a Ofélia, personagem daquele programa da Globo que fazia dupla com o ator Lúcio Mauro.
Mas é claro que há excessões (com dois s). Passaram pelas minhas mãos (no bom sentido é bom que se esclareça) gente como Carla Vilhena, João Pedro Paes Leme, Murilo Fiúza, Aziz Filho, Jason Vogel, Gioconda Brasil; hoje brilhando nos jornais, revistas e tvs.
E quando alguns se metem a fazer gracinhas? Num texto em que peço aos alunos para usarem da criatividade, já pintou coisa como “Dom Eugênio tomando água de coco em um quiosque em Copacabana”, “O bom de saltar um pum é que você não sabe de onde vai, nem de onde vem”,
Tem um trabalho de aluno que até hoje guardo e mostro como exemplo de imbecilidade em minhas aulas. Pedi uma entrevista em forma de pingue-pongue (perguntas e respostas) e o aluno ou viajou, ou me gozou ou é burro mesmo. Começava assim: “A ´idéia´ coordenada da desestruturação do ponto de vista psicológico não tem como estrutura arquivada da idéía principal do dissimulador”.
E continuava: “A origem não fornece dados ao conhecimento da maneira que a linguagem encadeia a atividade da ponderação psicológica da lógica a sua linguagem elabora a experiência da informação do ser”.
No final, ele ainda fez uma espécie de pedido: “Faça a análise da coordenação do sensorial do poder crítico da linguagem desestruturada da idéia psicomotora?“.
Mas não é apenas de universitários que coleciono asneiras. Guardo até hoje comigo um texto cometido por um sujeito que se diz jornalista e que assessorou uma entidade bastante conhecida no Rio de Janeiro. Certa vez, ele me procurou para me passar um “release” que tinha escrito em homenagem a um associado, que estava para completar 50 anos trabalhando no Brasil.
"Você não vai ter nenhum trabalho. O texto já está pronto. Eu mesmo fiz", disse ele.
E me passou o texto, que logo no início colocava o homenageado em uma situação pelo menos polêmica:
“...Esse seu jeito autêntico e inimitável, torna-o uma pessoa amada por uns e odiada por outros...”
Indisciplinada também: “Recordista em suspensões, nosso homenageado aos poucos se adaptou ao sistema e métodos da nossa entidade e não a nossa entidade a ter que adaptar-se aos seus sistemas e métodos”.
De personalidade forte, com certeza: “... Revolucionário nato, falando sempre alto, jogando a agenda no chão e operando de uma forma séria e eficiente, ele sempre foi homem de confiança para realizar-se um bom negócio. Na realidade a nossa entidade está para o nosso homenageado como o cérebro está para o coração; um não vive sem o outro..”
Mas de difícil convivência:
“As más línguas dizem que ele ao dormir ronca e baba na fronha, além de soltar gases poluentes ao ambiente. Por isso é acordado às 5 da manhã para vir logo para a entidade...”
No final, nosso assessor deu uma suavizada e passou uma mensagem digamos assim bastante positiva:
“Hoje este patrimônio ambulante tem uma relação com seus patrícios de irmão para irmão; como unha e cutícula”.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
PDT almoça frango e batatinha com Brizola
Esta crônica foi publicada após a morte do político Leonel Brizola e reproduzida em alguns sites como o "La Insignia".
PDT almoça frango e batatinha com Brizola
Paulo Cezar Guimarães
"Isso que está aí tem
olho de jacaré e boca de jacaré.
Como não vai ser um jacaré?".
UMA FIGURAÇA! Se é que se pode rotular uma autoridade com esse adjetivo sem parecer desrespeitoso.
Fui repórter de O Globo responsável pela cobertura do Palácio Guanabara durante o primeiro governo Brizola e me diverti muito. Me aborreci também. Mas me diverti mais.
Logo nos primeiros dias de governo, Brizola decidiu adotar uma forma de trabalho que seria uma rotina no seu dia-a-dia: fazer reuniões fora do Palácio, de preferência em churrascarias, em especial numa de Ipanema. Levava todo mundo para lá e fazia questão que experimentassem a maminha de alcatra, uma das especialidades da casa.
Certa vez, não sossegou até convencer um chefe de estado, vegetariano, de um país da África a provar uma fatia da suculenta e sangrenta carne. Tudo isso utilizando-se apenas de gestos.
Brizola era um notório monoglota, apesar de ter vivido muitos anos fora do Brasil. Era centralizador sim. Não dava muita bola para a maioria dos seus secretários e, principalmente, para a sua curiosa bancada na Assembléia Legislativa.
Pressionado por alguns parlamentares, decidiu receber os políticos em um almoço no Palácio Guanabara. A pauta de conversas era grande: um melhor entrosamento e maior entendimento entre o Legislativo e o Executivo, a coligação entre o PDT e o PMDB com vistas à eleição de 1986 e a interiorização do acordo. Os deputados, que antes do encontro disseram aos repórteres que "iriam fazer e acontecer", ao final, ficaram "pianinhos", como se dizia antigamente. Nada foi veiculado sobre a reunião. Um deles chegou a dizer: "Não houve novidades. Nós comemos um franguinho, um arroz à grega e uma batatinha bem coradinha". No dia seguinte, O Globo divulgou os diálogos inusitados entre os parlamentares com o título: "PDT almoça frango e batatinha com Brizola".
Viajava para o exterior sem informar aos seus assessores diretos. Muitas vezes tomavam conhecimento através de bilhetes ou por meio do Diário Oficial em razão do pedido obrigatório de licença que tinha que ser encaminhado à Assembléia Legislativa. Freqüentemente utilizava o Palácio Laranjeiras para "evitar o contato com manifestantes e bajuladores" que o assediavam diariamente no Palácio Guanabara.
Uma vez foi surpreendido por um grupo de estudantes e funcionários da Proderj que saíram do Guanabara e foram para o Laranjeiras fazer reivindicações. Aliás, ao contrário de outros governantes que o antecederam ou o sucederam, não morava no Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador do Estado. Preferia ficar em seu apartamento da Avenida Atlântica, em Copacabana, onde realizava muitos de seus despachos com seus auxiliares de confiança.
Desde o slogan lembrado até hoje (principalmente por dona Maria Tereza Goulart) "cunhado não é parente, Brizola pra Presidente", no início dos anos 60, era lançador de frases pitorescas, geralmente com o recurso de comparações imaginosas e muitas vezes procurando atingir alguém com uma estocada irônica.
Como da vez em que lançou suspeita sobre alguns setores da oposição de estarem tentando desestabilizar o seu governo: "Isso que está aí tem olho de jacaré e boca de jacaré. Como não vai ser um jacaré?". Famoso por pontuar suas frases com "não é verdade" e "rigorosamente" criou a expressão "socialismo moreno" e foi eleito com o slogan "Brizola na cabeça".
Antes de tomar posse, anunciou: "Não estranhem, não vou ser a Rainha da Inglaterra". Lula, a quem chamou um dia de "sapo barbudo", e o PT também foram vítimas de suas estocadas durante uma greve: "Isso é coisa desses barbudinhos de óculos redondos que têm a geladeira cheia na casa da mamãe, do papai ou da titia".
Tinha uma relação de mais tapas do que de beijos com a Imprensa. Não gostava muito de dar entrevistas para a televisão, usava pouco o rádio nas conversas com os repórteres. Preferia ficar longas e intermináveis horas com o pessoal dos jornais.
Queixava-se muito da cobertura jornalística do seu governo e de algumas perguntas que considerava comprometedoras. Uma vez reagiu a um questionamento de um repórter: "A sua pergunta até parece um destaque do editorial de ontem do seu jornal". E acrescentou: "Viu como há falha mental aí? Tu não andou distribuindo prospectos convidando para passeatas?".
Saí de O Globo para trabalhar em uma empresa multinacional e dar aulas de jornalismo numa faculdade. Deixei de ter contato com ele.
Uma vez, fiz um pequeno teste com alunos de uma de minhas turmas com a seguinte pergunta: "O que vocês acham da cobertura que a Imprensa faz do governo Brizola?". A maioria considerava a cobertura "tendenciosa".
Comentei com um amigo jornalista e não sei como a informação chegou a ele, através de seu assessor de muitos anos, o saudoso Carlos Contursi. Brizola me chamou em sua casa para ler os textos dos alunos. Interrompeu uma reunião com seu secretariado e ficou mais de uma hora envolvido com folhas e folhas de papel almaço escritas com os "garranchos" dos estudantes. Chegou a me pedir para divulgar os textos em um de seus famosos "tijolaços", publicados freqüentemente nos jornais. Não concordei. Ele voltou atrás.
"Tens razão. Mas posso ler todos?". Leu todos os 50 e poucos textos manuscritos por alunos. Muitos criticavam asperamente o seu governo, alguns com fortes críticas pessoais. Eu ficava constrangido; ele ria.
Nunca mais vi Leonel Brizola de perto.
PDT almoça frango e batatinha com Brizola
Paulo Cezar Guimarães
"Isso que está aí tem
olho de jacaré e boca de jacaré.
Como não vai ser um jacaré?".
UMA FIGURAÇA! Se é que se pode rotular uma autoridade com esse adjetivo sem parecer desrespeitoso.
Fui repórter de O Globo responsável pela cobertura do Palácio Guanabara durante o primeiro governo Brizola e me diverti muito. Me aborreci também. Mas me diverti mais.
Logo nos primeiros dias de governo, Brizola decidiu adotar uma forma de trabalho que seria uma rotina no seu dia-a-dia: fazer reuniões fora do Palácio, de preferência em churrascarias, em especial numa de Ipanema. Levava todo mundo para lá e fazia questão que experimentassem a maminha de alcatra, uma das especialidades da casa.
Certa vez, não sossegou até convencer um chefe de estado, vegetariano, de um país da África a provar uma fatia da suculenta e sangrenta carne. Tudo isso utilizando-se apenas de gestos.
Brizola era um notório monoglota, apesar de ter vivido muitos anos fora do Brasil. Era centralizador sim. Não dava muita bola para a maioria dos seus secretários e, principalmente, para a sua curiosa bancada na Assembléia Legislativa.
Pressionado por alguns parlamentares, decidiu receber os políticos em um almoço no Palácio Guanabara. A pauta de conversas era grande: um melhor entrosamento e maior entendimento entre o Legislativo e o Executivo, a coligação entre o PDT e o PMDB com vistas à eleição de 1986 e a interiorização do acordo. Os deputados, que antes do encontro disseram aos repórteres que "iriam fazer e acontecer", ao final, ficaram "pianinhos", como se dizia antigamente. Nada foi veiculado sobre a reunião. Um deles chegou a dizer: "Não houve novidades. Nós comemos um franguinho, um arroz à grega e uma batatinha bem coradinha". No dia seguinte, O Globo divulgou os diálogos inusitados entre os parlamentares com o título: "PDT almoça frango e batatinha com Brizola".
Viajava para o exterior sem informar aos seus assessores diretos. Muitas vezes tomavam conhecimento através de bilhetes ou por meio do Diário Oficial em razão do pedido obrigatório de licença que tinha que ser encaminhado à Assembléia Legislativa. Freqüentemente utilizava o Palácio Laranjeiras para "evitar o contato com manifestantes e bajuladores" que o assediavam diariamente no Palácio Guanabara.
Uma vez foi surpreendido por um grupo de estudantes e funcionários da Proderj que saíram do Guanabara e foram para o Laranjeiras fazer reivindicações. Aliás, ao contrário de outros governantes que o antecederam ou o sucederam, não morava no Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador do Estado. Preferia ficar em seu apartamento da Avenida Atlântica, em Copacabana, onde realizava muitos de seus despachos com seus auxiliares de confiança.
Desde o slogan lembrado até hoje (principalmente por dona Maria Tereza Goulart) "cunhado não é parente, Brizola pra Presidente", no início dos anos 60, era lançador de frases pitorescas, geralmente com o recurso de comparações imaginosas e muitas vezes procurando atingir alguém com uma estocada irônica.
Como da vez em que lançou suspeita sobre alguns setores da oposição de estarem tentando desestabilizar o seu governo: "Isso que está aí tem olho de jacaré e boca de jacaré. Como não vai ser um jacaré?". Famoso por pontuar suas frases com "não é verdade" e "rigorosamente" criou a expressão "socialismo moreno" e foi eleito com o slogan "Brizola na cabeça".
Antes de tomar posse, anunciou: "Não estranhem, não vou ser a Rainha da Inglaterra". Lula, a quem chamou um dia de "sapo barbudo", e o PT também foram vítimas de suas estocadas durante uma greve: "Isso é coisa desses barbudinhos de óculos redondos que têm a geladeira cheia na casa da mamãe, do papai ou da titia".
Tinha uma relação de mais tapas do que de beijos com a Imprensa. Não gostava muito de dar entrevistas para a televisão, usava pouco o rádio nas conversas com os repórteres. Preferia ficar longas e intermináveis horas com o pessoal dos jornais.
Queixava-se muito da cobertura jornalística do seu governo e de algumas perguntas que considerava comprometedoras. Uma vez reagiu a um questionamento de um repórter: "A sua pergunta até parece um destaque do editorial de ontem do seu jornal". E acrescentou: "Viu como há falha mental aí? Tu não andou distribuindo prospectos convidando para passeatas?".
Saí de O Globo para trabalhar em uma empresa multinacional e dar aulas de jornalismo numa faculdade. Deixei de ter contato com ele.
Uma vez, fiz um pequeno teste com alunos de uma de minhas turmas com a seguinte pergunta: "O que vocês acham da cobertura que a Imprensa faz do governo Brizola?". A maioria considerava a cobertura "tendenciosa".
Comentei com um amigo jornalista e não sei como a informação chegou a ele, através de seu assessor de muitos anos, o saudoso Carlos Contursi. Brizola me chamou em sua casa para ler os textos dos alunos. Interrompeu uma reunião com seu secretariado e ficou mais de uma hora envolvido com folhas e folhas de papel almaço escritas com os "garranchos" dos estudantes. Chegou a me pedir para divulgar os textos em um de seus famosos "tijolaços", publicados freqüentemente nos jornais. Não concordei. Ele voltou atrás.
"Tens razão. Mas posso ler todos?". Leu todos os 50 e poucos textos manuscritos por alunos. Muitos criticavam asperamente o seu governo, alguns com fortes críticas pessoais. Eu ficava constrangido; ele ria.
Nunca mais vi Leonel Brizola de perto.
sábado, 3 de janeiro de 2009
Um estranho no ninho (NOVA)
Um estranho no ninho
Paulo Cezar Guimarães
Na primeira vez que saí para jantar
com colegas na China, deu tudo certo
até pedirmos a sobremesa.
VIDA DE EXECUTIVO É FOGO! Sabemos disso. Que o diga Renato Paladino, da Vale do Rio Doce. Logo que entrou na Companhia, ainda jovem, foi transferido para o Japão, e uma de suas primeiras missões foi acompanhar uma negociação na China.
"A aventura de fazer negócios no exterior é inesquecível, e coloca as pessoas em situações inusitadas, engraçadas e curiosas. Na hora de comer, principalmente. Tem momentos em que não há gesto que dê jeito. Na primeira vez que saí para jantar com colegas na China, deu tudo certo até pedirmos a sobremesa. Cansado de se expressar inutilmente, um colega resolveu pedir a sobremesa pelo preço. Escolheu a mais cara, no cardápio em chinês. Veio um bolo de aniversário enorme. Teve até ´Parabéns pra você’, cantado por garçons, cozinheiros e pelo dono do restaurante", lembra, rindo.
Por falar em comemoração, é bom lembrar que os chineses adoram um brinde. Geralmente com uma espécie de aguardente muito forte.
"Você tem que virar o copo para mostrar que bebeu tudo. Se você não é forte para a bebida, corre o risco de ficar tonto".
Paladino conta que já experimentou as coisas mais estranhas do mundo. Como o ovo de 100 anos, por exemplo. A “sutil iguaria”, depois de ficar enterrada na cal durante longo tempo, vira uma espécie de gelatina preta, que é servida em fatias.
"Sem falar no pepino do mar, que dizem ser bom para a virilidade, e no olho de peixe, servido na sopa. O ideal, mesmo, é só perguntar depois de comer. Uma vez fui apresentado ao tal ´Sole mio´, uma carne roxa, que, até hoje, eu não descobri o que é. O perigo é quando o convidado elogia muito a comida com o objetivo de agradar. Eles acabam colocando mais no prato".
Cobra, ele garante que nunca comeu. Mas conta que numa feira em Taiwan, um colega teve de experimentar.
"Eles espremem a cobra, retiram o sangue e põem no copo para beber".
É certo que o Oriente hoje está mais ocidentalizado, digamos assim, mas há quinze anos, pouca gente falava inglês, e havia dificuldade para se comunicar. Cada missão durava em torno de 30 a 40 dias. E tinha também situações perigosas. Como aquela em que um grupo de amigos de Paladino foi fazer uma negociação no Irã durante a guerra com o Iraque. Precisaram sair correndo para não ficar no meio do conflito.
"Uma vez, na Índia, durante uma reunião com executivos da segunda maior empresa do país, roubaram todas as nossas malas que estavam no carro. Ficamos retidos quase uma semana sem conseguir voltar para casa, pois os nossos passaportes estavam dentro do veículo. Chateados com a situação, os indianos colocaram um despachante a nossa disposição. Só depois, soubemos o que aconteceu: o motorista, que trabalhava há seis anos na empresa, costumava dormir no carro. Aquela tinha sido a terceira vez que isso acontecia".
E as viagens entre os países? Certa vez, para fazer uma negociação na Líbia, Paladino levou quase dois dias viajando sem parar.
"Saímos de Bruxelas para a Tunísia. Em Tunis, pegamos um outro avião para Djerba, na fronteira da Tunísia com a Líbia. Um motorista foi nos buscar, e viajamos 9 horas pelo deserto, num carro sem ar condicionado".
Pensam que a aventura acabou assim? Que nada:
"O pior foi ficar ouvindo música árabe durante todo o percurso, sem mudar. Algo assim como ficar ouvindo um tema de uma mesma novela seis meses sem parar".
Paulo Cezar Guimarães
Na primeira vez que saí para jantar
com colegas na China, deu tudo certo
até pedirmos a sobremesa.
VIDA DE EXECUTIVO É FOGO! Sabemos disso. Que o diga Renato Paladino, da Vale do Rio Doce. Logo que entrou na Companhia, ainda jovem, foi transferido para o Japão, e uma de suas primeiras missões foi acompanhar uma negociação na China.
"A aventura de fazer negócios no exterior é inesquecível, e coloca as pessoas em situações inusitadas, engraçadas e curiosas. Na hora de comer, principalmente. Tem momentos em que não há gesto que dê jeito. Na primeira vez que saí para jantar com colegas na China, deu tudo certo até pedirmos a sobremesa. Cansado de se expressar inutilmente, um colega resolveu pedir a sobremesa pelo preço. Escolheu a mais cara, no cardápio em chinês. Veio um bolo de aniversário enorme. Teve até ´Parabéns pra você’, cantado por garçons, cozinheiros e pelo dono do restaurante", lembra, rindo.
Por falar em comemoração, é bom lembrar que os chineses adoram um brinde. Geralmente com uma espécie de aguardente muito forte.
"Você tem que virar o copo para mostrar que bebeu tudo. Se você não é forte para a bebida, corre o risco de ficar tonto".
Paladino conta que já experimentou as coisas mais estranhas do mundo. Como o ovo de 100 anos, por exemplo. A “sutil iguaria”, depois de ficar enterrada na cal durante longo tempo, vira uma espécie de gelatina preta, que é servida em fatias.
"Sem falar no pepino do mar, que dizem ser bom para a virilidade, e no olho de peixe, servido na sopa. O ideal, mesmo, é só perguntar depois de comer. Uma vez fui apresentado ao tal ´Sole mio´, uma carne roxa, que, até hoje, eu não descobri o que é. O perigo é quando o convidado elogia muito a comida com o objetivo de agradar. Eles acabam colocando mais no prato".
Cobra, ele garante que nunca comeu. Mas conta que numa feira em Taiwan, um colega teve de experimentar.
"Eles espremem a cobra, retiram o sangue e põem no copo para beber".
É certo que o Oriente hoje está mais ocidentalizado, digamos assim, mas há quinze anos, pouca gente falava inglês, e havia dificuldade para se comunicar. Cada missão durava em torno de 30 a 40 dias. E tinha também situações perigosas. Como aquela em que um grupo de amigos de Paladino foi fazer uma negociação no Irã durante a guerra com o Iraque. Precisaram sair correndo para não ficar no meio do conflito.
"Uma vez, na Índia, durante uma reunião com executivos da segunda maior empresa do país, roubaram todas as nossas malas que estavam no carro. Ficamos retidos quase uma semana sem conseguir voltar para casa, pois os nossos passaportes estavam dentro do veículo. Chateados com a situação, os indianos colocaram um despachante a nossa disposição. Só depois, soubemos o que aconteceu: o motorista, que trabalhava há seis anos na empresa, costumava dormir no carro. Aquela tinha sido a terceira vez que isso acontecia".
E as viagens entre os países? Certa vez, para fazer uma negociação na Líbia, Paladino levou quase dois dias viajando sem parar.
"Saímos de Bruxelas para a Tunísia. Em Tunis, pegamos um outro avião para Djerba, na fronteira da Tunísia com a Líbia. Um motorista foi nos buscar, e viajamos 9 horas pelo deserto, num carro sem ar condicionado".
Pensam que a aventura acabou assim? Que nada:
"O pior foi ficar ouvindo música árabe durante todo o percurso, sem mudar. Algo assim como ficar ouvindo um tema de uma mesma novela seis meses sem parar".
domingo, 14 de dezembro de 2008
Ao Mestre com carinho
Ao Mestre com carinho
Paulo Cezar Guimarães
E grite, como fez Darcy Ribeiro
ao ver a Passarela do Samba ser inaugurada:
"É o orgasmo, e fui eu que criei..."
ENTRO NA LIVRARIA da Travessa, no centro do Rio, e encontro meu amigo e ex-aluno Murilo Fiúza, então repórter da Sucursal Rio de O Estado de S. Paulo.
- Mestre!
E vocês não imaginam o quanto é gostoso ser chamado de Mestre. Ainda mais na frente dos outros. Conversa vai, conversa vem, ele me mostra, orgulhoso, a primeira página do Estadão daquele dia. Está lá, com selo de exclusivo e tudo, uma reportagem sobre a participação de brasileiros no tráfico de cocaína na Colômbia. Dentro, três páginas de matéria - assinada. Demonstro interesse em dar uma lida.
- Leia na Internet, professor.
Faço cara de quem não vai procurar na Internet, ele percebe e promete:
- Melhor, vou separar um exemplar pra você.
Argumento que esse negócio de deixar para depois é coisa de carioca. - Não estou mais em idade de cair nessa.
Peço, então, o exemplar dele.
- Toma. É seu. Estava guardando para mostrar a minha mulher, mas consigo outro amanhã na Redação.
- Aceito, mas quero uma dedicatória.
- Tá louco, professor?!
- E qual é o problema?
A contragosto, meio envergonhado, ele faz a dedicatória.
- Vou mostrar aos meus alunos. É um bom tema para iniciar uma aula.
Saio da livraria, feliz com o entusiasmo do Murilo, e relembro da minha satisfação ao ver minhas matérias publicadas. Desde as primeiras, assinadas ou não, até aquelas que hoje publico em jornais de empresas ou os artigos que escrevo atualmente na Internet.
Lembro-me de que, certa vez, entrei no ônibus e reparei que o passageiro ao meu lado lia minha reportagem publicada no Globo. Não costumo abordar as pessoas, mas meu orgulho falou – ou pensou? – mais alto.
- Meu amigo, desculpe incomodá-lo, mas não resisto. Sabe essa reportagem que o senhor está lendo? Fui eu que escrevi....
- Ah é, é? E eu que fiz essa manchete da capa. Aliás, tenho três prêmios Esso de Reportagem e fui correspondente de guerra junto com o Rubem Braga e o...
Ainda tentei argumentar, mostrando minha carteira de identidade, mas o cara levantou-se irritado, me empurrando com o joelho. Desceu do ônibus, olhou para o motorista e resmungou:
- A gente vê cada uma!
Quando eu sabia que, no dia seguinte, iria ser publicada uma matéria assinada minha, quase não dormia. Mesmo quando a via ser diagramada ou quando conferia as provas na Redação. De manhã, cedinho, fazia quase que um plantão na banca de jornal, diante do meu prédio, no Grajaú. Chegava antes do jornaleiro. E olha que eu detesto acordar cedo. O vigia do prédio estranhou na primeira vez que isso aconteceu, quando me viu descer de pijama às 4 da matina:
- Está acontecendo alguma coisa seu Paulinho? (seu Paulinho também é dose, né?)
De outra vez, cruzei com o padeiro na escada. Estranhei, pois ele estava sem a cesta de pães; e pensei, maldoso:
- Será que esse cara estava no apartamento de alguma vizinha? Padeiro, mordomo e dentista são sempre suspeitos.
Mas a minha glória mesmo foi uma vez, na fila do guichê do Globo, para receber meu contra-cheque. Fui surpreendido pela atendente que deu uma gargalhada ao me ouvir dizer meu nome.
- Você é que é o Paulo Cezar Guimarães?
Cheguei a olhar debaixo da sola do meu sapato para ver se tinha pisado em alguma coisa, e juro que até olhei para o reflexo do vidro para saber se minha cara estava suja de carbono (acho que estou ficando velho, pois sou do tempo do carbono na Redação).
- Li a sua matéria...
E ainda gritou para uma colega:
- Fulana, olha aqui o cara que eu falei. Aquele. Daquela matéria sobre ...
No dia anterior, um domingo, tinha sido publicada uma curiosa e engraçada reportagem minha sobre “Os Chatos” (chato de comportamento, não aquele bichinho que dá lá no... no...).
E tem mais: arquivava tudo; desde as pequenas notinhas até as matérias de página inteira.
Portanto, meu caro Murilo, curta, mas curta mesmo. Se bobear, e a coragem não faltar, prenda numa cartolina e passeie com a sua matéria pendurada no pescoço pela Avenida Rio Branco.
E grite, como fez Darcy Ribeiro ao ver a Passarela do Samba ser inaugurada:
"É o orgasmo, e fui eu que criei..."
Paulo Cezar Guimarães
E grite, como fez Darcy Ribeiro
ao ver a Passarela do Samba ser inaugurada:
"É o orgasmo, e fui eu que criei..."
ENTRO NA LIVRARIA da Travessa, no centro do Rio, e encontro meu amigo e ex-aluno Murilo Fiúza, então repórter da Sucursal Rio de O Estado de S. Paulo.
- Mestre!
E vocês não imaginam o quanto é gostoso ser chamado de Mestre. Ainda mais na frente dos outros. Conversa vai, conversa vem, ele me mostra, orgulhoso, a primeira página do Estadão daquele dia. Está lá, com selo de exclusivo e tudo, uma reportagem sobre a participação de brasileiros no tráfico de cocaína na Colômbia. Dentro, três páginas de matéria - assinada. Demonstro interesse em dar uma lida.
- Leia na Internet, professor.
Faço cara de quem não vai procurar na Internet, ele percebe e promete:
- Melhor, vou separar um exemplar pra você.
Argumento que esse negócio de deixar para depois é coisa de carioca. - Não estou mais em idade de cair nessa.
Peço, então, o exemplar dele.
- Toma. É seu. Estava guardando para mostrar a minha mulher, mas consigo outro amanhã na Redação.
- Aceito, mas quero uma dedicatória.
- Tá louco, professor?!
- E qual é o problema?
A contragosto, meio envergonhado, ele faz a dedicatória.
- Vou mostrar aos meus alunos. É um bom tema para iniciar uma aula.
Saio da livraria, feliz com o entusiasmo do Murilo, e relembro da minha satisfação ao ver minhas matérias publicadas. Desde as primeiras, assinadas ou não, até aquelas que hoje publico em jornais de empresas ou os artigos que escrevo atualmente na Internet.
Lembro-me de que, certa vez, entrei no ônibus e reparei que o passageiro ao meu lado lia minha reportagem publicada no Globo. Não costumo abordar as pessoas, mas meu orgulho falou – ou pensou? – mais alto.
- Meu amigo, desculpe incomodá-lo, mas não resisto. Sabe essa reportagem que o senhor está lendo? Fui eu que escrevi....
- Ah é, é? E eu que fiz essa manchete da capa. Aliás, tenho três prêmios Esso de Reportagem e fui correspondente de guerra junto com o Rubem Braga e o...
Ainda tentei argumentar, mostrando minha carteira de identidade, mas o cara levantou-se irritado, me empurrando com o joelho. Desceu do ônibus, olhou para o motorista e resmungou:
- A gente vê cada uma!
Quando eu sabia que, no dia seguinte, iria ser publicada uma matéria assinada minha, quase não dormia. Mesmo quando a via ser diagramada ou quando conferia as provas na Redação. De manhã, cedinho, fazia quase que um plantão na banca de jornal, diante do meu prédio, no Grajaú. Chegava antes do jornaleiro. E olha que eu detesto acordar cedo. O vigia do prédio estranhou na primeira vez que isso aconteceu, quando me viu descer de pijama às 4 da matina:
- Está acontecendo alguma coisa seu Paulinho? (seu Paulinho também é dose, né?)
De outra vez, cruzei com o padeiro na escada. Estranhei, pois ele estava sem a cesta de pães; e pensei, maldoso:
- Será que esse cara estava no apartamento de alguma vizinha? Padeiro, mordomo e dentista são sempre suspeitos.
Mas a minha glória mesmo foi uma vez, na fila do guichê do Globo, para receber meu contra-cheque. Fui surpreendido pela atendente que deu uma gargalhada ao me ouvir dizer meu nome.
- Você é que é o Paulo Cezar Guimarães?
Cheguei a olhar debaixo da sola do meu sapato para ver se tinha pisado em alguma coisa, e juro que até olhei para o reflexo do vidro para saber se minha cara estava suja de carbono (acho que estou ficando velho, pois sou do tempo do carbono na Redação).
- Li a sua matéria...
E ainda gritou para uma colega:
- Fulana, olha aqui o cara que eu falei. Aquele. Daquela matéria sobre ...
No dia anterior, um domingo, tinha sido publicada uma curiosa e engraçada reportagem minha sobre “Os Chatos” (chato de comportamento, não aquele bichinho que dá lá no... no...).
E tem mais: arquivava tudo; desde as pequenas notinhas até as matérias de página inteira.
Portanto, meu caro Murilo, curta, mas curta mesmo. Se bobear, e a coragem não faltar, prenda numa cartolina e passeie com a sua matéria pendurada no pescoço pela Avenida Rio Branco.
E grite, como fez Darcy Ribeiro ao ver a Passarela do Samba ser inaugurada:
"É o orgasmo, e fui eu que criei..."
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Pedro Malan de onde? (Nova)
Pedro Malan de onde?
Já fui senador Paulo Cezar Guimarães,
monsenhor, deputado, general,
comendador e até "amigo do hômi".
- Quem deseja?
- Pedro Malan.
- Pedro Malan de onde?
Como tenho um nome bastante comum, quase sempre que ligo para alguém, ouço a pergunta:
- Paulo Cezar de onde?
Já fui Paulo Cezar do Globo, Paulo Cezar da Souza Cruz, Paulo Cezar da LBA, Paulo Cezar da Petroquisa, Paulo Cezar da revista Imprensa. Fui até Paulo Cezar do Jornal do Brasil - embora nunca tenha trabalhado no jornal da Condessa.
No início da minha carreira, estagiei no Diário de Notícias na fase em que o jornal já estava moribundo. E todo mundo sabe que não se atende telefonema de repórter de empresa falida. Então, cansado de nunca ser correspondido, passei a dizer que era do JB toda vez que queria fazer uma entrevista. Foi a forma que encontrei para ser recebido pelas fontes e não ouvir o "volta amanhã".
Hoje, sou Paulo Cezar professor da FACHA. Também já fui Paulo Cezar da Portafolio, Paulo Cezar da Aberje. No meu prédio, Paulo Cezar do 204. Para os amigos da minha filha, sou o Paulo Cezar, pai da minha filha.
Como forma de descontrair e relaxar, passei a fazer parte do grupo de
pessoas que se identificam com outro nome, de preferência de alguma personalidade.
Por conta disso, já fui Nascimento Brito, Boris Casoy (Doris o quê?, costumo ouvir), Artur Sendas, Vitor Fasano, Francisco Cuoco, Andrezinho, do grupo Molejo, Renato Gaúcho.
Tem gente que ri, tem gente que estranha, mas todos passam o recado adiante.
Para "confundir" alguns, já fui Mário Jorge Lobo, Artur Antunes Coimbra, Manoel Francisco dos Santos, Edson Arantes do Nascimento. Já fui senador Paulo Cezar Guimarães, monsenhor, deputado, general, comendador e até "amigo do hômi".
Um de meus "nomes" preferidos já foi José Carlos dos Reis Encina, famoso traficante carioca, que se tornou celebridade nacional ao escapar de um presídio usando um helicóptero. É curioso que, como muita gente conhece o verdadeiro nome de Escadinha, já atende rindo e dizendo:
- Fala PC!
Aprendi essa "gracinha" há muitos anos com o meu saudoso e querido amigo Lanning Elwis, o jornalista mais irreverente que conheci, meu sócio no começo da agência. A primeira vez que fui "vítima" trabalhava na Souza Cruz.
E ainda não tinha proibido minha secretária de atender o telefone e
perguntar "fulano de onde?".
- Lanning de onde? - perguntou Rosângela.
- É o professor de balé dele - respondeu.
"PC: tem um cara no telefone dizendo que é o seu professor de balé!"
Rosângela ainda atendeu muitos telefonemas do Lanning, mas nunca mais caiu na brincadeira. Sabia bem quem era o doutor Roberto (Marinho). Uma vez, meu chefe não deixou Lanning subir. Conhecia também quem era o Hipólito da Costa que estava na recepção da empresa. Hipólito, todos sabem, foi o primeiro jornalista brasileiro.
Hoje virou moda. Todo mundo é professor de balé. Ou melhor, muitos repetem esta brincadeira do Lanning. Mas acho que foi ele quem inventou. E já se passou muito tempo!
Ainda na linha do "quem é o senhor?", gostaria, antes de terminar, de contar uma historinha que presenciei há alguns anos e que passei para a coluna "Informe JB", à época editada pelo Marcelo Pontes. Vocês lembram do João Batista de Oliveira Figueiredo, autor da célebre frase "Me esqueçam!?"
Eu estava no Oculistas Associados, em Botafogo, e ele chegou. Se aproximou da recepcionista, disse que tinha hora marcada. A mocinha quis saber:
- Qual o seu nome?
- João - respondeu humildemente o ex-presidente da República.
- João de quê? - perguntou de novo a recepcionista.
- Figueiredo. João Figueiredo.
- O senhor tem plano de saúde?
- Não.
- Então seu João, senta ali naquele banquinho e aguarde a sua vez de ser atendido.
Não foi João de onde, foi João de quê. Por isso, não me surpreendi outro dia, quando me apresentei como Pedro Malan e a secretária de meu amigo quis saber de onde era esse tal de Pedro Malan.
Já fui senador Paulo Cezar Guimarães,
monsenhor, deputado, general,
comendador e até "amigo do hômi".
- Quem deseja?
- Pedro Malan.
- Pedro Malan de onde?
Como tenho um nome bastante comum, quase sempre que ligo para alguém, ouço a pergunta:
- Paulo Cezar de onde?
Já fui Paulo Cezar do Globo, Paulo Cezar da Souza Cruz, Paulo Cezar da LBA, Paulo Cezar da Petroquisa, Paulo Cezar da revista Imprensa. Fui até Paulo Cezar do Jornal do Brasil - embora nunca tenha trabalhado no jornal da Condessa.
No início da minha carreira, estagiei no Diário de Notícias na fase em que o jornal já estava moribundo. E todo mundo sabe que não se atende telefonema de repórter de empresa falida. Então, cansado de nunca ser correspondido, passei a dizer que era do JB toda vez que queria fazer uma entrevista. Foi a forma que encontrei para ser recebido pelas fontes e não ouvir o "volta amanhã".
Hoje, sou Paulo Cezar professor da FACHA. Também já fui Paulo Cezar da Portafolio, Paulo Cezar da Aberje. No meu prédio, Paulo Cezar do 204. Para os amigos da minha filha, sou o Paulo Cezar, pai da minha filha.
Como forma de descontrair e relaxar, passei a fazer parte do grupo de
pessoas que se identificam com outro nome, de preferência de alguma personalidade.
Por conta disso, já fui Nascimento Brito, Boris Casoy (Doris o quê?, costumo ouvir), Artur Sendas, Vitor Fasano, Francisco Cuoco, Andrezinho, do grupo Molejo, Renato Gaúcho.
Tem gente que ri, tem gente que estranha, mas todos passam o recado adiante.
Para "confundir" alguns, já fui Mário Jorge Lobo, Artur Antunes Coimbra, Manoel Francisco dos Santos, Edson Arantes do Nascimento. Já fui senador Paulo Cezar Guimarães, monsenhor, deputado, general, comendador e até "amigo do hômi".
Um de meus "nomes" preferidos já foi José Carlos dos Reis Encina, famoso traficante carioca, que se tornou celebridade nacional ao escapar de um presídio usando um helicóptero. É curioso que, como muita gente conhece o verdadeiro nome de Escadinha, já atende rindo e dizendo:
- Fala PC!
Aprendi essa "gracinha" há muitos anos com o meu saudoso e querido amigo Lanning Elwis, o jornalista mais irreverente que conheci, meu sócio no começo da agência. A primeira vez que fui "vítima" trabalhava na Souza Cruz.
E ainda não tinha proibido minha secretária de atender o telefone e
perguntar "fulano de onde?".
- Lanning de onde? - perguntou Rosângela.
- É o professor de balé dele - respondeu.
"PC: tem um cara no telefone dizendo que é o seu professor de balé!"
Rosângela ainda atendeu muitos telefonemas do Lanning, mas nunca mais caiu na brincadeira. Sabia bem quem era o doutor Roberto (Marinho). Uma vez, meu chefe não deixou Lanning subir. Conhecia também quem era o Hipólito da Costa que estava na recepção da empresa. Hipólito, todos sabem, foi o primeiro jornalista brasileiro.
Hoje virou moda. Todo mundo é professor de balé. Ou melhor, muitos repetem esta brincadeira do Lanning. Mas acho que foi ele quem inventou. E já se passou muito tempo!
Ainda na linha do "quem é o senhor?", gostaria, antes de terminar, de contar uma historinha que presenciei há alguns anos e que passei para a coluna "Informe JB", à época editada pelo Marcelo Pontes. Vocês lembram do João Batista de Oliveira Figueiredo, autor da célebre frase "Me esqueçam!?"
Eu estava no Oculistas Associados, em Botafogo, e ele chegou. Se aproximou da recepcionista, disse que tinha hora marcada. A mocinha quis saber:
- Qual o seu nome?
- João - respondeu humildemente o ex-presidente da República.
- João de quê? - perguntou de novo a recepcionista.
- Figueiredo. João Figueiredo.
- O senhor tem plano de saúde?
- Não.
- Então seu João, senta ali naquele banquinho e aguarde a sua vez de ser atendido.
Não foi João de onde, foi João de quê. Por isso, não me surpreendi outro dia, quando me apresentei como Pedro Malan e a secretária de meu amigo quis saber de onde era esse tal de Pedro Malan.
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